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sábado, 16 de novembro de 2013

A Mente & o Gerenciamento de suas Funções #2



. segunda parte .


Por Fernando Liguori


[Satsanga realizado durante os nove meses do Curso de Aprofundamento em Yoga ministrado pelo Instituto Kaula em 2011.]


A função de citta

A segunda função de mahat é citta, o aspecto da mente que abrange a memória, o inconsciente profundo, o solo onde as sementes dos saṃskaras são plantadas e nutridas. A atividade de citta opera em função das memórias e experiências obtidas no curso da vida e que se tornaram parte de nosso entendimento, natureza ou svabhava.

Quando olhamos para um objeto, citta torna-se ativa e busca nos arquivos da memória onde aquele objeto já foi visto. É a sua função trazer a clara luz o arquivo da memória onde aquela experiência estava guardada, mesmo que tenha ocorrido há muitos anos. O evento passado é recordado e experienciado novamente no presente, com toda clareza e pessoas envolvidas. Em uma fração de segundos o objeto é identificado! Neste momento, o arquivo da memória tornou-se parte da experiência presente.

É citta quem decide o que é desejável ou não para nós. Nossas memórias do passado nos ajudam a compreender melhor as interações do presente. Se olharmos um objeto que nunca tivemos contato, ele não terá significado ou utilidade para nós, mas se já tivemos alguma experiência com ele, imediatamente a memória trará lembranças de como utilizá-lo. Uma faca pode ser utilizada para cortar vegetais, esfaquear alguém ou servir como instrumento de corte em uma operação para salvar uma vida. Contudo, se não tivermos nenhuma memória destas três funções da faca, não seremos capazes de utilizá-la. Se você utiliza a faca apenas para cortar vegetais e nunca esfaqueou ninguém, então essa memória não estará impressa na fita de sua memória, citta. Portanto, a conexão com o mundo, os sentidos e seus objetos, o reconhecimento do meio ambiente, escolhas, gostos e desgostos, ocorrem por meio de citta na medida em que ela traz a tona impressões passadas e memórias.

Citta é o campo de atuação ou contém as expressões de prazer e dor. A experiência de prazer ou dor não está sob a atividade de buddhi ou manas, mas sim de citta. Uma lembrança da infância pode ser prazerosa ou dolorosa e seja lá onde ou quando essa memória precipitar, sua emoção correspondente também se precipitará. Uma memória prazerosa trará felicidade; uma memória dolorosa trará sofrimento. Dor e prazer, portanto, surgem de citta. Quando alguém lhe pergunta, «como está se sentindo?» e você responde, «estou feliz», não é manas, buddhi ou o ego falando, mas citta analisando e respondendo. Citta lhe incita a dizer, «estou feliz», pois ela analisou o momento como bom ou ruim através das experiências passadas. Citta aprecia e nega; ela define o que é bom e o que não é; ela é responsável por suas associações: às vezes se associa e às vezes se desassocia, dependendo daquilo que ela vê como bom ou ruim, prazer ou dor.

O gerenciamento de citta através da meditação

Muitos problemas psicológicos têm suas raízes em citta; eles não estão enraizados nos reinos de buddhi ou nos domínios de manas, muito menos são uma expressão do ego. Muitos problemas psicossomáticos estão firmemente enraizados em citta. Existe uma história que aconteceu com um médico australiano que chegou no aśram de Swami Satyananda na década de setenta que ilustra esse tópico.

O médico em questão sofria de asma desde a infância. Naquele período, a medicina não oferecia quase nenhum tipo de ajuda. Portanto, os medicamentos disponíveis não ajudavam muito o pequeno menino. Na medida em que crescia, tomou a decisão de se formar em medicina e se especializar em doenças que acometiam o sistema respiratório, a fim de que pudesse, ele mesmo, vencer a doença. Contudo, a asma só se agravava na medida em que ficava mais velho.

Em 1976 ele conheceu Swami Satyananda e tornou-se seu discípulo. Na época, swamijī disse a ele, «até o momento você usou inúmeros medicamentos que não surtiram efeitos, não é mesmo?» O médico respondeu, «é verdade, todo medicamento que tomei falhou em me ajudar a vencer a asma.» Swamijī disse, «a partir desse momento medite.» O medico iniciou uma prática meditativa que incluía āsana, prāṇāyāma e o estilo de vida yogī em um aśram.

Um dia ele teve um flash, uma visão durante sua meditação. Uma memória precipitou-se na superfície da mente onde ele se viu como um bebê nos braços de uma babá. A babá lhe forçava uma comida que ele não desejava garganta abaixo. Ela lhe ameaçava, «se você não comer eu vou contar a sua mãe e ela lhe colocará de castigo.» Como um bebê ele não podia analisar ou entender o que ela dizia, mas escutou as palavras «castigo», «contar» e «mãe». Então engoliu a comiga e um bloqueio se formou.

Essa foi a causa de sua desordem respiratória. Depois de descobrir essa memória durante a meditação, ele se viu livre do constrangimento dos sintomas da doença. Tornou-se um swami renomado e autor de livros inspirados como O Gerenciamento da Asma & Diabetes Através do Yoga. Quando retornou a Austrália, se submeteu a alguns testes e descobriu estar livre da asma. Essa é a história de Swami Shankardevananda Saraswati.

O que esse incidente indica? Uma memória em citta tornou-se a causa de seu problema de saúde. Quando ele reconheceu essa memória, imediatamente a causa do problema foi reconhecida e removida. Ocorreu uma aceitação consciente de algo que tivera acontecido há muito tempo, o que o levou a encontrar paz em seu interior. Essa é a função de citta.

Gostos e desgostos também são uma função de citta. Quando dizemos, «eu gosto disso, eu não gosto daquilo, desejo isso, não desejo aquilo», é uma expressão de citta. As memórias nos permitem apreciar, gostar, aceitar e desejar da mesma maneira que rejeitar, negligenciar, desgostar e não desejar. Quando vamos a um restaurante e pedimos o cardápio, selecionamos imediatamente os sabores que experimentamos e apreciamos anteriormente. Se nos é oferecido algo novo, a tendência imediata é hesitar. Podemos vacilar, «talvez eu não goste disso» ou «sei lá se isso é ruim». Na medida em que não temos a memória, a dúvida surgirá. Uma vez que já tenhamos memória de algo, a resposta sempre é clara.

Para gerenciar as manifestações e expressões de citta, o caminho é a meditação. Quando swamijī instruiu o médico na prática da meditação, os véus de sua mente caíram um a um e ele pode ver a memória de sua infância e descobrir a causa de sua doença. Uma condição que não pode ser curada através de nenhum medicamento foi superada através da meditação. Swami Satyananda sabia que a doença que lhe acometia não era de natureza fisiológica, ele sabia que ela estava enraizada em citta, em uma impressão, uma memória. As escrituras do Yoga nos ensinam que devemos meditar com regularidade para gerenciar as atividades de citta e a percepção dos gostos e desgostos que surgem dela.

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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Descobrindo a Meditação



Por Fernando Liguori


[Texto retirado da apostila do Módulo I da Oficina de Meditação, edição 2010, ministrada pelo Instituto Kaula. Este satsanga foi realizado no anfiteatro da Escola de Música Pró-Música, ministrado pelo Instituto Kaula em 13 de novembro de 2009.]


Na medida em que experimentamos este nível profundo
de meditação, descobrimos que a natureza da mente
é meditação e que isso, por si mesmo, é uma
experiência iluminadora.

Swami Niranjanananda Saraswati


Quase todas as disciplinas espirituais praticam alguma forma de meditação. Ordinariamente, a meditação é tida como uma forma de pensamento combinado com palavras, imagens ou conceitos. Mas a meditação não é pensar sobre alguma coisa. A experiência meditativa pode parecer bem subjetiva – minha consciência, meu estado de alerta. Entretanto, quando observamos o processo meditativo com mais profundidade, descobrimos que a consciência não é nem subjetiva e nem objetiva; da mesma maneira, ela não pode ser analisada conceitualmente. Consciência é um estado de abertura que ocorre quando a mente é deixada funcionar a sua própria maneira, sem interrupções, distrações ou expectativas.

A consciência meditativa é como um espaço completamente vazio. Mas não o espaço como nós comumente entendemos, pois a consciência não é um lugar e não possui uma forma particular. Este espaço não está dentro ou fora do corpo. Não é mental ou físico e ainda, ao mesmo tempo, é um sentido profundo e integrado de estabilidade, franqueza, sinceridade e equilíbrio – que é a experiência da meditação em si mesma.

Tradicionalmente, o início da meditação envolve certas práticas tais como dhāraṇā (concentração), visualização de imagens, entoação de mantras etc. Os professores enfatizam a necessidade de técnicas diferentes, dependendo das necessidades dos praticantes. Por exemplo, um professor pode pedir a um estudante para ir sozinho a um lugar quieto e permanecer ali completamente em silêncio por meia hora ou vinte e cinco minutos. Da mesma maneira, ele pode pedir a outro estudante que vá as montanhas e lá entoe mantras em voz alta. Outro estudante pode ser instruído em fixar seu olhar na chama de uma vela mantendo os olhos o tempo todo abertos.

Geralmente, acima de tudo, nossa prática deve promover a calma e o relaxamento como bases fundamentais ao desenvolvimento da estabilidade e concentração. A meditação nos ensina a sermos calmos e felizes, aproveitando a vida em sua plenitude, com satisfação e o mais importante, auxilia no gerenciamento das faculdades mentais para que efetivamente possamos lidar com os problemas tanto físicos quanto emocionais ou mentais com equilíbrio e equanimidade. Nossa vida se torna equilibrada quando somos capazes de integrar qualquer experiência da vida com a prática meditativa. Podemos incluir em nossa prática o regozijo e a felicidade, bem como a fúria, o ressentimento, a frustração e a infelicidade, todas as emoções que sentimos dia-a-dia. Podemos transformar todas as nossas emoções em uma prática meditativa calma e relaxada.

No início, a meditação parece algo simples: aquiete seus ares internos, mantenha-se calmo, imóvel, relaxado etc., seguindo alguma instrução específica. Contudo, na medida em que refinamos o processo meditativo, percebemos que a meditação envolve muito mais do que apenas relaxar e lidar com seus pensamentos e emoções. A Meditação é um processo de busca pela verdade ou pelo entendimento, é a tentativa de descobrir a natureza da existência e da mente humana. Para obtermos tal conhecimento precisamos mergulhar profundamente na meditação para descobrirmos o que somos de verdade.

Mas como você medita? Primeiro, o corpo deve estar imóvel, estável, aquietado. Fisicamente, você deve relaxar seus músculos e se desprender de todas as tensões. Sua postura deve ser confortável para que permaneça imóvel, sem se mexer em hipótese alguma. A respiração deve ser gentil, suave. Inspire e expire suavemente. Na medida em que você relaxa mais o corpo, a respiração, mente e emoções, o sistema nervoso vai se aquietando também, naturalmente. Com o sistema nervoso calmo e tranquilo, a mente torna-se calma e tranquila, a corrente de pensamentos cessa e você experimenta o silêncio interior. Existem várias maneiras de se atingir este estado, mas para não se perder no mundo destas instruções, apenas relaxe naturalmente seu corpo, respiração e mente. Assim, o corpo torna-se firme e imóvel, a respiração equilibrada e a mente e os sentidos em paz. Neste momento você será capaz de sentir seus sentidos aflorarem completamente. Nesse caminho notará que a meditação não é uma tarefa complicada ou algo exótico, importado de outra terra, mas ao contrário, ela é parte de nossa natureza.

Não existe a necessidade de se tentar chegar a algum lugar, atingir alguma meta. Essa tentativa pode se tornar frustrante ao perceber que ela se tornou um obstáculo ao processo do relaxamento. Punir a si mesmo ou a tentativa de seguir um conjunto rígido de instruções pode causar problemas, pois quando existe esforço em demasia e nenhum resultado é obtido – ou pelo menos percebido – cria-se expectativas internas, o que atrapalha na condução do silêncio interior. Quando você tenta conceitualizar a experiência da «meditação perfeita», o resultado é a criação de um estado sem fim de conflito e diálogo interno.

Por conta dos conceitos serem necessários nos estágios iniciais da meditação, desde o início, o praticante é separado da experiência. Mas com o tempo, na medida em que ele se envolve com os processos meditativos, descobre que a meditação vai muito além de qualquer conceitualização. Se ele continuar relaxando e acalmando sua mente, eventualmente nenhum esforço será necessário para praticar a meditação.

Quando você está aprendendo a meditar, o melhor é partir sempre de si mesmo, experienciar a si mesmo, em toda sua totalidade, sem rejeitar ou excluir qualquer parte de si. Todos os seus sentimentos e pensamentos podem fazer parte de sua meditação, você pode experimentar cada um a sua maneira e quando estiver preparado, siga em frente, deixando-os de lado. Neste caminho, você pode começar a descobrir os vários níveis sutis e estados da mente. A mente simplesmente observa seu processo natural; cada pensamento, desejo e motivação se torna um apoio natural a este tipo de meditação. Em certo nível, haverá a distinção entre aspectos negativos e positivos, mas na medita em que o processo meditativo se aprofunda, você não mais perceberá essa discriminação relativa, se preparando para experiências mais refinadas. A meditação transcende o dualismo. Tudo o que você experiencia pode ser visto como perfeito, pois a qualidade da perfeição reside na mente e não nas coisas externas.

Quando memórias desconfortáveis aparecem, a tranquilidade é abalada, mas essa sensação passa se um estado de alerta total, um estado de consciência plena estiver sendo exercido, pois nele é impossível se apegar a qualquer pensamento seja lá sua natureza. É importante permanecer em um estado relaxado e quieto sem pensar «o que é a meditação?» ou «será que estou meditando?» Simplesmente aceite a si mesmo. Você não está tentando aprender a meditação, você é a meditação. Todo o seu corpo, respiração, pensamentos, sentidos e consciência, todo seu ser... tudo é meditação. Não se preocupe em estar perdido. Tudo em você, todo seu campo energético é meditação. Assim, com o tempo o praticante descobre que não é necessário seguir nenhuma instrução ou se preocupar em atingir qualquer experiência.

Swami Niranjan certa vez disse que «na medida em que experimentamos este nível profundo de meditação, descobrimos que a natureza da mente é meditação e que isso, por si mesmo, é uma experiência iluminadora.» Essa experiência é livre de tudo e ao mesmo tempo se manifesta em tudo. Isso, em si mesmo, é a liberação.


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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A Concentração & sua Importância



Por Fernando Liguori


Concentração é o unidirecionamento da mente, a habilidade de manter a consciência focada em um ponto, sem oscilar. O aperfeiçoamento da concentração induz a meditação. No estado de concentração, a mente não está consciente do ambiente exterior ou das coisas periféricas que cercam o objeto de concentração.

Por que a concentração profunda e intensa é tão poderosa? Isso pode ser melhor ilustrado pela comparação da mente de uma pessoa normal a uma lamparina. As luzes da lamparina se expandem para todas as direções; a energia que emana do centro da lamparina, do filamento interior, é dissipada, propagando-se em todas as direções. Se você ficar a cinco passos da lamparina poderá ver sua luz, mas não sentirá o seu calor, mesmo que haja um calor intenso no centro da lamparina, no filamento. Da mesma maneira, a mente de uma pessoa comum possui um vasto potencial latente e um incomensurável poder em sua fonte, seu centro, mas este potencial e poder são dissipados em todas as direções. A mente pensa inúmeras coisas continuamente, uma após a outra, sem vivenciar ou se aprofundar em nada do que pensa. Quer dizer, o poder está presente em todas as pessoas, mas ele não é canalizado, direcionado ou mesmo utilizado.

A ciência produziu o raio laser, algo que na época foi largamente utilizado como entretenimento pela indústria cinematográfica. Para se produzir o laser é necessário que todos os raios de luz estejam alinhados a partir de uma única fonte, de maneira que eles em uníssono vibrem em harmonia na mesma frequência. A fonte original de onde sai à luz não precisa ser grande, pelo contrário, ela pode ser bem menor que o filamento da lamparina citada acima. Mas se você ficar a cinco passos da fonte do raio laser seu feixe direcional instantaneamente pode abrir um buraco através de seu corpo. Este é o poder da luz concentrada. O pensamento concentrado, embora não abra um buraco em seu corpo, tem um vasto poder. Uma mente concentrada age como um irresistível instrumento de ação. Ela conduz a eficiência em todos os aspectos da vida, é um dínamo que gera vitalidade e entusiasmo em qualquer direção que se projete. Uma mente concentrada é um instrumento de recepção sensitiva, quer dizer, ela se torna receptiva as vibrações elevadas e possui a percepção aguçada. Neste caminho, ela se torna o mecanismo receptor da consciência cósmica, bem-aventurança e conhecimento superior. Normalmente, tudo isso está muito além de uma mente comum, pois esta é constantemente perturbada e distraída pelo contínuo murmúrio interior dos pensamentos. Portanto, a concentração é a chave que abre as portas para os estados elevados de consciência.

A qualidade da mente

Uma mente concentrada é uma mente poderosa e uma mente dissipada é uma mente fraca. Para que você possa desenvolver o poder da mente, necessita primeiro desenvolver a concentração mental. Uma mente que se dissipa facilmente não tem poder. Se seus pensamentos estão dispersivos, eles podem ser unidirecionados através de específicas práticas de concentração. Dessa maneira sua mente se tornará tão poderosa que você poderá até influenciar a mente de outras pessoas e mudar seu próprio caráter, melhorar sua saúde e transformar toda sua vida. Se você possui alguma desordem estomacal, mental ou respiratória, pode modificar seu quadro clínico apenas pelo poder de sua vontade. Como pode desenvolver o poder de sua vontade? O segredo é concentrar a mente em um ponto e ali permanecer sem oscilar. Uma mente forte pode fazer isso.

O que queremos dizer por mente forte? Uma mente forte é aquela que pode tomar suas próprias decisões. Em contraste, uma mente fraca é aquela que decide alguma coisa, mas faz outra. Você diz: a partir de amanhã vou fazer determinada coisa. Mas quando o amanhã chega, você se esquece completamente da decisão. Você continua sempre sendo a mesma pessoa porque sua mente continua sempre se dissipando. Portanto, o poder de transformação da vida está conectado ao poder de concentração da mente. Todos os grandes homens que forjaram seus nomes nos livros da história, sejam eles artistas, escritores, músicos, políticos, estadistas, líderes militares, cientistas ou santos, conquistaram sua posição pela qualidade de suas mentes. Eles não se tornaram grandes pelo capricho da natureza ou por um golpe do destino. Não, eles se tornaram grandes pela qualidade de suas mentes. Eles tinham uma mente forte e concentrada e, portanto, uma mente talentosa.

Se você quer fazer algo ou se tornar alguém na vida, a qualidade de sua mente tem de ser refinada. Se você possui uma baixa qualidade mental, então seu desempenho em todas as esferas da vida será parco, estéril e débil. Se você possui alta qualidade mental, então seu desempenho será correspondentemente elevado em todas as esferas da vida. Para desenvolver uma alta qualidade mental, terá de analisar a si mesmo e seus objetivos, terá de se organizar e dedicar algum tempo a prática de concentração pela manhã e a noite.

Objetos de concentração

A concentração pode ser praticada de várias maneiras. O objeto de concentração pode ser qualquer um dos centros localizados no corpo como o cidākāśa, hṛdayākāśa ou daharākāśa, nos cakras etc. A concentração também pode ser feita nas diferentes partes do corpo, no processo físico, na estabilidade corporal, no relaxamento ou tensão do corpo ou no processo respiratório.

Qualquer objeto pode ser utilizado como foco para concentração. Entretanto, uma vez selecionado o objeto, você deve utilizá-lo dia após dia em sua prática. Ele deve chamar sua atenção, atraí-lo espontaneamente. Para algumas pessoas o objeto aparece por si mesmo em visões, sonhos ou insights intuitivos. Essa é a melhor forma de seleção do objeto, pois é espontânea e está em concordância, na maioria das vezes, com a natureza do indivíduo. Outras pessoas, contudo, terão de encontrar um objeto adequado a sua natureza por conta própria. Para auxiliar essas pessoas, preparamos uma lista de objetos adequados a prática de concentração. Essa lista dá uma ideia de quão vasto o assunto é e quantos objetos podem ser escolhidos para prática. O número é ilimitado e os itens que se seguem são apenas exemplos. Talvez algum dos objetos aqui listados irá atraí-lo de imediato, mas talvez não. Neste caso, você terá de usar sua imaginação nos estágios iniciais da prática até que o símbolo adequado a sua natureza apareça espontaneamente. Isso acontecerá quando você estiver completamente relaxado.1

Deuses, santos e pessoas: Viṣṇu, Brahma, Śiva, Trimurti, Sītā, Rāma, Rādhā, Kṛṣṇa, Saraswatī, Pārvatī, Gaṇeśa, Hānuman, Lakṣmī, Durgā, Kālī, Varuna, Vāyu, Īndra, Sūrya, Soma, Cristo, Maria, Buda, Lao-Tsé, Milarepa, Naropa, São Francisco de Assis, Swami Sivananda, seu guru, alguma outra deidade ou santo, seu pai, sua mãe, seu marido, sua esposa, seu filho, sua filha, seu amigo, professor ou alguém que o inspire.

Objetos sagrados: śivalinga, tridente, śaligrama, jyoti, cruz, altar, janelas de uma catedral, eucaristia, cálice, candelabro, bola de cristal, sacerdote, estátua de algum santo padroeiro, imagens tântricas, arcanjos, guirlanda de crânios ou a kuṇḍalinī.

Lugares sagrados: templos, igrejas, capelas, catedrais, pirâmides, monastérios, santuários, aśrams ou pagodes.

Cenários naturais: montanhas, vales, oásis, dunas, selvas, florestas, jardins, flores, chuvas, tempestades, tornados, relâmpagos, oceanos, ondas do mar se chocando contra as escarpas, pôr-do-sol ou montanhas de gelo.

Animais: elefante, antílope, leão, tigre, macaco, águia, pavão, borboleta, crocodilo, cobra, cachorro, gato, cavalo ou peixe estrela.

Símbolos, elementos e pedras: Terra, Fogo, Água, Ar, Éter, Tamas, Rajas, Sattvas; Aquário, Peixes, Virgem, Libra, Gêmeos, Capricórnio, Sagitário, Escorpião, Leão, Touro, Câncer e Áries; Lua, Marte, Vênus, Saturno, Júpiter, Netuno, Mercúrio, Urânio, Plutão e o Sol; rubi, ônix, ágata, safira, diamante, jaspe, topázio, cristal, ametista, opala, jade, granada, pérola, berilo; liga de peltre, aço, ouro, prata, latão, estanho e cobre.

Cores e formas: vermelho, azul, verde, amarelo, índigo, laranja, rosa, preto, branco, púrpura, luz solar, luz lunar, luz do fogo, chama da vela, relâmpago, estrela, hexagrama, retângulo, coração, ovo dourado, bīja-mantra, yantra, diagramas dos cakras, maṇḍalas e nāḍīs.

Evite confrontos mentais

Você pode se concentrar em qualquer grande santo, luz, som, cor, forma, pensamento ou qualquer coisa que deseje, mas uma coisa deve estar bem clara: para iniciar sua prática de concentração não é necessário selecionar um símbolo religioso. Às vezes um pensamento que produza grande impressão na sua consciência pode ser usado de forma mais eficaz. Não existe razão para lutar contra a mente. Durante a prática de concentração você pode estar tentando se concentrar em um símbolo religioso, mas sua mente pode não concordar por conta de seus condicionamentos. Quando você tenta se concentrar em algo contrário aos seus condicionamentos mentais, a mente drena sua concentração do objeto escolhido. Contudo, quando você se concentra em coisas ordinárias que não se chocam com seus condicionamentos, não existe distração.

Quando você tenta se concentrar em um símbolo errado, a distração ocorre porque se inicia uma contenda mental. Portanto, é importante que você compreenda que quando se inicia a prática de concentração, deve haver o mínimo de confronto com os condicionamentos da mente. Não há porque lutar contra a própria mente. Quem está lutando com quem? Não existem duas mentes. A consciência é uma, mas por conta da diversidade existem vários vṛttis, quer dizer, padrões mentais. Quando você confronta a si mesmo está criando uma querela entre seus próprios vṛttis, e quando esse confronto se torna intenso, o que ocorre é um ataque esquizofrênico. A maioria dos pacientes mentais são vítimas de suas próprias mentes.

Portanto, se você não está conseguindo se concentrar em nenhum dos símbolos sugeridos acima, então escolha o seu próprio símbolo. O importante é que o símbolo escolhido deve ter uma força de atração que sua mente automaticamente é atraída para ele de forma que se integre completamente nele. Quando a prática caminha nessa direção, então a concentração é facilmente conquistada.

A habilidade de se concentrar

A concentração é explicada na Kaṭha Upaniṣad (2:3:11) por Yama, o Senhor da Morte, a Nachiketas, um jovem buscador:


O firme controle dos sentidos e da mente é o yoga da concentração. Esteja atento a esse yoga pois ele é difícil de se conquistar e fácil de se perder.

A palavra concentração significa unidirecionamento. Assim como nós precisamos de um lápis afiado para escrever ou uma faca afiada para cortar, a mente precisa estar afiada através das práticas de concentração. Nós não podemos cortar com uma faca cega ou escrever com um lápis sem ponta, pois a pressão aplicada se espalha por uma área bem maior. Ela não está concentrada. A importância da mente concentrada no dia-a-dia é vastamente reconhecida, mas a mente ordinária não funciona de maneira concentrada. Ela se dissipa em várias direções e tenta abranger muitos pontos. Portanto, não estamos capacitados a utilizar sequer a mínima fração de nosso potencial, de nosso poder mental.

Nós conhecemos muitas coisas na vida. Sabemos muito sobre nosso trabalho, nossos familiares, a sociedade e o mundo que nos cerca, história, ciência e política, mas não sabemos como controlar e dirigir a mente. O poder da concentração não foi desenvolvido na maioria de nós. Em nossa infância e nos primórdios de nosso crescimento não passamos por um treinamento que pudesse nos auxiliar a controlar e dirigir a mente. Por conta disso, na medida em que crescemos nossa mente se torna mais dissipada enquanto acumula mais tensões, angústias e aborrecimentos. Isso resulta em uma incrível perda de acuidade mental, decisões equivocadas, conduta ineficaz, memória fraca e finalmente a senilidade.

Podemos ser mestres da tecnologia e de tudo o que concerne ao mundo exterior, mas não somos mestres de nossa mente. Às vezes a tecnologia que nos dá controle sobre certas funções mentais nos ilude completamente. Ter controle sobre uma máquina significa que nós podemos ligá-la, significa que podemos ir mais rápido, diminuir a velocidade e até mesmo parar quando for necessário. O mesmo é requerido de uma mente disciplinada. Uma mente disciplinada é aquela que pensa somente quando você quer e sobre o que você decide. Se você quer que ela pense rápido, devagar ou pare de pensar, ela irá fazê-lo imediatamente. Os pensamentos que entram em uma mente disciplinada são rapidamente reconhecidos e direcionados.

Se nós examinarmos a vida dos yogīs, sadhus, saṃnyāsins, santos e místicos, notaremos que eles têm algo em comum. Eles vivem em um estado de concentração intensa, unidirecionada, dedicando-se totalmente ao ideal ou propósito que escolheram como último objetivo de conquista espiritual. Eles ganham controle sobre si mesmos e sobre suas mentes pela prática regular e estável. Através do poder de concentração que possuem, eles gradualmente integram suas mentes a oração ou meditação até que sejam capazes de conquistar um estado de perfeito controle mental. Usualmente, quando conhecemos uma pessoas assim, a primeira impressão é de uma profunda paz interior, estabilidade e autocontrole.

A habilidade de se concentrar é a raiz de todas as boas qualidades no homem e para ser desenvolvida ela requer esforço extremo. Desenvolver uma mente concentrada é mais difícil do que conquistar um bom salário ou um bom emprego. Uma pessoa comum não nasce com a habilidade de se concentrar, portanto é necessário uma mudança na natureza pessoal a fim de se criar algo que antes não existia. É muito diferente do que estudar conceitos filosóficos de livros ou se submeter a várias palestras. A concentração é algo que deve ser praticada e descoberta pessoalmente, dessa maneira os frutos irão aparecer.

O essencial para se desenvolver a concentração é a constância na prática. Contudo, antes de iniciarmos uma prática de concentração, precisamos ter alguma idéia sobre a larga extensão que este estado mental de desenvolvimento cobre. As práticas de concentração e meditação foram codificadas nos textos do Yoga, nos Tantras e nas Upaniṣads. Portanto, o assunto deveria ser estudado e pesquisado nessas fontes para um melhor desenvolvimento. A concentração não é uma prática superficial. Ela envolve um mergulho profundo nas dimensões internas da mente e da consciência. Para isso, precisamos de três coisas: i. método correto; ii. orientação correta; e iii. entendimento correto.


Referências


LIGUORI, Fernando. Meditação Natural: passo a passo na construção de sua prática. Manuscrito do autor.
_____________. Yogasūtra de Patañjali – Nova Tradução & Comentário. Manuscrito do autor.
PINTO, Lilian Costa. Iluminação Espiritual: A Emergência do Sagrado na Tradição Iogue e na Psicologia Transpessoal. Petrópolis, Brasil: Editora Vozes, 2001.
SARASWATI, Dr. Rishi Vivekananda. Practical Yoga Psychology. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2008.
SARASWATI, Swami Muktibodhananda. Hatha Yoga Pradipika. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2009.
_____________. Swara Yoga: The Tantric Science of Brain Breathing. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2006.
SARASWATI, Swami Niranjanananda. Dharana Darshan: Yogic, Tantric and Upanishadic Practices of Concentration and Visualization. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2006.
_____________. Yoga Darshan: Vision of the Yoga Upanishads. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2002.
SARASWATI, Swami Satyadharma. Yoga Chudamani Upanishad: Crown Jewel of Yoga. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2005.
SARASWATI, Swami Satyananda. A Systematic Course in the Ancient Tantric Techniques of Yoga and Kriya. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2004.
_____________. Asana Pranayama Mudra Bandha. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust / Belo Horizonte, Brasil: Satyananda Yoga Center, 2009.
_____________. Dynamics of Yoga, the Foundations of Bihar Yoga. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2006.
_____________. Four Chapters on Freedom: Commentary on the Yoga Sutras of Patanjali. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2008.
_____________. Meditations from the Tantras. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2005.
_____________. Sure Ways to Self-Realization. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust, 2006.
_____________. Yoga e Educação para Crianças. Bihar, Índia: Yoga Publications Trust / Belo Horizonte, Brasil: Satyananda Yoga Center, 2006.

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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Redefinindo o Yoga



Por Fernando Liguori


[Extratos do satsanga realizado durante a abertura do Curso de Aprofundamento em Yoga ministrado pelo Instituto Kaula em 2011.]


Bem vindos ao mundo do Yoga onde todo dia descobrimos que é possível melhorar a qualidade de nossas vidas e trilhar o caminho do dharma. Na medida em que nos mantemos nessa realização, estamos conectados ao espírito do Yoga. Isso é o que nós temos de aprender, acreditar e viver, pois essa é a marca registrada do Yoga.

Nós vamos abordar as tradições do Yoga como o sādhanā da Bhagavadgītā, o Sāṃkhya e o Vedānta. Quando abordamos essas tradições dentro do contexto do Yoga, compreendemos o que podemos oferecer, não apenas o que o Yoga tem a nos oferecer. A Bhagavadgītā coloca ênfase no desenvolvimento da personalidade humana. O Sāṃkhya e o Vedānta nos possibilitam descobrir os planos cósmicos e como atingir estados elevados de consciência. Vamos redefinir o Yoga para uma melhor compreensão.

Consciência dos condicionamentos

O Yoga é definido como a harmonia e o equilíbrio em todos os níveis de expressão humana e existência, dos sentidos a mente e ao espírito. Contudo, a fim de se estabelecer este estado de harmonia interior, temos de reconhecer os condicionamentos que fazem de nós o que somos, que formam nossa personalidade, nossa natureza. Em nossa vida, do momento em que nascemos até a hora da morte, estamos sujeitos aos condicionamentos. A partir do momento em que os sentidos entram em contato com os objetos os condicionamentos nascem. Todos os pares de opostos entram em ação: atração, repulsão, gosto, desgosto, possessividade, desapego. O Yoga começa quando nos tornamos conscientes destes condicionamentos.

Quando se pratica os āsanas, as posturas do Yoga, você se torna consciente dos condicionamentos físicos, na medida em que flexiona e torce o corpo. A rigidez corporal é um condicionamento. A rigidez mental é um condicionamento. Fixidez de pensamento, emoção, sentimento, expectativa e desejo é um condicionamento. Da perspectiva do Yoga, o primeiro item sempre presente em nossas vidas é o estado de condicionamento que existe em todos os níveis – físico, sensorial, mental, psicológico, emocional, psíquico, espiritual, familiar e social. Os condicionamentos nos fazem felizes e infelizes. Nós aceitamos e apreciamos a beleza da vida ou não. A consciência desde estado de condicionamento em todos os níveis é conhecida como dṛṣṭa, o observador, aquele-que-vê, a testemunha, como postulado no Yogasūtra de Patañjali. Quem é o dṛṣṭa e o que ele observa? Tem sido ensinado que a primeira coisa a ser observada é o estado de condicionamento que controla o comportamento físico, psicológico, emocional e espiritual. Portanto, reconhecer os nossos condicionamentos é o início do Yoga.

Os três estágios do Yoga

O Yoga possui três estágios. O primeiro é a consciência dos condicionamentos. O segundo é a descoberta do antídoto que altera os condicionamentos, um método, um sistema ou processo que pode nos livrar dos condicionamentos ou intensificá-los, para que possamos desenvolver todos os nossos potenciais. Todos nós possuímos uma sabedoria inata capaz de avaliar qual condicionamento é restritivo e qual é enriquecedor, qual qualidade é desejável e qual nos prejudica. Descobrir o processo tanto para intensificar quanto transformar e transcender os condicionamentos é o segundo estágio do Yoga ou experiência na vida. O terceiro estágio é a aplicação do processo, a maneira de vivê-lo, propagá-lo... O terceiro passo é ser o processo vivo.

Este três estágios são parte de nossa experiência yogī e compreensão de sua filosofia. Se existe foco na vida, então a prática de haṭha-yoga ganha um propósito especial; a prática do bhakti, karma, rāja, mantra e outras técnicas do Yoga têm um significado específico e objetivo a ser conquistado. Não um objetivo abstrato, mas um objetivo conquistável, transformador. Este é o sistema do Yoga.

O Yoga pode ser compreendido como uma cultura, um estilo de vida, uma filosofia ou um processo científico de desenvolvimento e autoaprimoramento. Vocês são livres para escolher. Contudo, quando todas as transformações psicológicas e espirituais ocorrerem, alterando os condicionamentos e o comportamento, então o Yoga naturalmente se torna parte de nós, de nosso estilo de vida, pensamentos, respostas e reações, como nos gerenciamos diante das adversidades da vida e como reconhecemos e cultivamos a estabilidade e paz interior. O Yoga se torna parte de nossa rotina e comportamento diário, assim, o Yoga se torna nosso estilo de vida. Este parece ser o entendimento correto do Yoga. Não importa o que você faça, seja a prática de haṭha ou rāja-yoga, pratyāhāra ou dhāraṇā, mantra, karma-yoga ou bhakti-yoga, execute-a como um dṛṣṭa, um observador, buscando aprimoramento e transformação.

Tradicionalmente, estes três estágios foram definidos por Patañjali nos três primeiros aforismos do Yogasūtra. Ele define os condicionamentos pelo termo citta-vṛtti. Os vṛttis ou condicionamentos governam nosso comportamento e todas as expressões humanas. De acordo com o Yogasūtra, a avaliação dos condicionamentos, a descoberta de como alterá-los, transformá-los ou intensificá-los é conhecida como citta-vṛtti-nirodhaḥ. A aplicação do método para intensificar nossos potenciais e qualidades é conhecida como dṛṣṭa-yoga, a pratica de se tornar estabelecido em sua própria natureza. Portanto, lembrem-se destes três pontos a serem aplicados em todas as áreas de expressão humana, seja física, mental ou emocional.

Os desequilíbrios físicos, mentais e emocionais e suas influências no corpo, mente e comportamento são condicionamentos. O impulso de transformar e transcender nossas limitações também é um condicionamento. Buda eventualmente dizia que, a fim de se autorrealizar, o desejo pela autorrealização deve ser eliminado. Quer dizer, devemos superar o condicionamento que nos impulsiona em direção a autorrealização e a experiência da liberdade interior enquanto trilhamos a jornada. Vivemos pelos condicionamentos em cada experiência humana, seja na saúde ou doença, prazer ou dor, centramento e escapismo, bem como nas responsabilidades nos níveis social, pessoal e interpessoal. Portanto, a consciência ou qualidade de dṛṣṭa se torna o componente principal do Yoga e portanto da vida que nos leva ao reconhecimento e gerenciamento das situações que nos fazem crescer.

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sábado, 28 de setembro de 2013

Abhyāsa & Vairāgya


Estudos sobre a Cultura Mahāṛṣi

Pātañjala Yoga

. Abhyāsa & Vairāgya .


Fernando Liguori


[Satsanga realizado durante os nove meses do Curso de Aprofundamento em Yoga ministrado pelo Instituto Kaula em 2011.]


 Na Bhagavadgītā, Arjuna faz uma referência a mente. Ele diz a Śrī Kṛṣṇa «VI: 34»:

cañcalaṃ hi manaḥ kṛṣṇa pramāthi balavad dṛḍham |
tasyāhaṃ nigrahaṃ manye vāyoriva suduṣkaram.

Pois a mente é inconstante, atormentada, poderosa, obstinada, ó Kṛṣṇa! Eu considero o controle dela tão difícil como o [controle] do vento.

Quando Arjuna fez esta observação, Śrī Kṛṣṇa concordou com ele. Ele respondeu «VI: 35»:

asaṃśayaṃ mahābāho mano durnigrahaṃ calam |
abhyāsena tu kaunteya vairāgyeṇa ca gṛhyate.

Sem dúvida, ó Mahābāhu [Arjuna], a mente é inconstante e difícil de ser controlada. Porém, ó Kaunteya [Arjuna], através da repetição e do desapego, ela é disciplinada.

Kṛṣṇa destacou dois exercícios a fim de se controlar ou gerenciar a mente. O primeiro foi abhyāsa, que literalmente é «repetição», mas nós também chamamos de «prática». O segundo foi vairāgya, «desapego» ou «indiferença». Mantendo essas duas referências em mente, vamos primeiro considerar o desapego, depois a prática.

Quando a palavra mente é usada no Yoga, ela se refere a todas as quatro funções ou comportamentos que manifesta na vida: manas, a habilidade de refletir ou pensar, buddhi, inteligência, citta, o armazém das memórias e ahaṃkāra, o ego.

Essa grande mente, integrada em sua totalidade, identifica, interage e se associa aos sentidos e aos objetos dos sentidos. A mente percebe o que os sentidos experimentam. Se seus olhos vêm um objeto, sua mente o reconhece, se identifica com ele, nomeia-o e o compreende em sua natureza. Se você sente o cheiro de algo, a mente o identificará e imediatamente irá apreciá-lo ou rejeitá-lo. Se você toca em alguma coisa, a mente vai reconhecê-la. Se você provar um doce, a mente irá reconhecer o sabor. Portanto, a mente se identifica e interage com os sentidos e seus objetos o tempo todo, em todas as circunstâncias.

Por que a mente se identifica com os objetos dos sentidos? Porque ela tem que fazer isso! A fim de sobreviver no mundo como um ser humano, a mente tem de seguir a lei da Natureza «prakṛti». Uma vez que a alma nasce, todas as faculdades do corpo, sejam sensoriais, mentais, emocionais ou intelectuais, se conectarão externamente com algo tangível e reconhecível. É por isso que a mente interage com o mundo.

Neste processo de interação existe uma busca, uma busca inconsciente de contentamento e felicidade. Não importa a direção em que os sentidos e a mente vão, você sempre está buscando felicidade e contentamento através dessa conexão ou associação. O desejo de posse e aquisição se manifesta como uma percepção subjacente de que você será feliz quando adquirir o objeto de seus desejos: «eu vivo em uma choupana, se eu vivesse em uma casa de verdade, seria uma pessoa melhor»; «eu tenho uma bicicleta, mas se eu tivesse uma motocicleta, seria uma pessoa melhor»; «eu tenho uma motocicleta, mas se eu tivesse um carro, seria uma pessoa melhor»; «eu não tenho família, se eu tivesse uma, seria uma pessoa melhor». Sempre estamos esperando que algo aconteça para sermos melhores. Nesse caminho, todas as interações na vida, com qualquer objeto dos sentidos, pessoas ou ideias, são uma busca pessoal por completude e satisfação. É isso que todos buscam por toda a vida.

Na medida em que a mente procura pelos sentidos e seus objetos, mantém-se distraída, dissipada e volátil. Quando a atração pelos objetos dos sentidos e a satisfação sensorial é reduzida, a mente se torna pacífica e quieta. Todos sabem disso, mas não são capazes de praticar porque não estão aptos a interromper a mente de seguir o trem do desejo. As pessoas são incapazes de guiar suas mentes, incapazes de saber o que realmente é apropriado e o que não é. É por isso que, a fim de controlar a mente e gerenciar seu comportamento, abhyāsa «prática» e vairāgya «desapego» têm de ser desenvolvidos.

Além da Bhagavadgītā, o Yogasūtra também menciona que, a fim de reduzir as aflições da mente e superar o sofrimento e a instabilidade mental, o praticante tem de desenvolver abhyāsa e vairāgya «I: 12»:

abhyāsavairagyābhyāṃ tannirodhaḥ.

Através da repetição e do desapego [emerge] a cessação [da identificação com as flutuações da consciência].

A lei do apego

Rāga significa «apego», «conectar-se» e vairāgya significa «desapego». Vairāgya indica que o praticante está livre da influência dos apegos.

O Yogasūtra declara que o apego é causado pela busca por prazer e felicidade «II: 7»:

sukhānuśayī rāgaḥ.

Apego é agarrar-se ao prazer.

Você se sente atraído a pessoas, lugares e objetos que lhe trazem a sensação da felicidade. Você se apega ao sentimento e a percepção do apego, associação ou conexão, acreditando que isso lhe trará felicidade. O oposto desta sensação é o sofrimento, duḥkha «II: 8»:

duḥkhānuśayī dveṣaḥ.

Aversão é agarrar-se ao sofrimento.

Apego e aversão, atração e repulsão, representam o movimento em pêndulo da mente. A mente oscila entre rāga e dveṣa, do apego e o prazer a rejeição e o sofrimento, de sukha a duḥkha. Este tem sido o comportamento da mente humana do nascimento ao momento de sua transição.

O ser humano está sempre gravitando ao redor dos lugares, objetos dos sentidos ou pessoas com quem possa experienciar o regozijo e a felicidade, evitando e rejeitando aqueles que podem gerar contenda, discórdia, conflito, tensão, confusão, sofrimento e desarmonia. Essa é a característica natural ou o comportamento peculiar da mente.

A atração pelo prazer dá nascimento ao estado de rāga na mente. Uma vez que tenha nascido, a experiência de rāga se intensifica, aumentando o apego aos objetos que supostamente trarão prazer. Neste apego e atração a mente perde seu equilíbrio. Quando o prazer do objeto do apego não é satisfeito, a mente perde sua estabilidade e experiência o sofrimento e o descontentamento. Este é o estado que Patañjali descreveu como duḥkhānuśayī dveṣaḥ. Quando a experiência do sofrimento se manifesta devido à inexistência do prazer, a única coisa que se pode pensar na hora é nas medidas necessárias para se livrar desta perturbação. Essa oscilação entre rāga e dveṣa é a causa da dissipação mental, depressão e doença. Desordens psicológicas são causadas porque a maioria das pessoas não está livre da oscilação entre rāga e dveṣa.

No estado de depressão você se conecta com o sofrimento. Mas se você se desconecta dele, não há razão para que a depressão continue a existir. Do outro lado do pêndulo, quando você está alegre e regozijante, existe grande expectativa pelo prazer, pois está conectado ao prazer. Essa conexão a atração pelo prazer, dá nascimento aos seus pensamentos correspondentes, comportamento e ações.

Enquanto existir oscilação entre dor e prazer, todas as faculdades da mente – manas, buddhi, citta e ahaṃkāra – continuarão desassossegadas, imersas na vida material, aleijadas de seu equilíbrio e controle. O resultado é a falta de paz interior e contentamento, intensificação da agitação mental, grande atração aos objetos dos sentidos e repulsão ardorosa ao sofrimento.

Cultivando o desapego

Para gerenciar o estado mental em que a mente oscila entre os opostos, abhyāsa e vairāgya têm de ser cultivados. Para compreender vairāgya, o desapego, primeiro identifique às áreas em sua vida que lhe causam apego a sensação de prazer e felicidade em conexão com os objetos dos sentidos. Este é o sentido do desapego. Não há negação de qualquer objeto dos sentidos, mas a consciência de que você não está apegado a ele. Isso é vairāgya.

Você não está negando, rejeitando ou renunciando a nada, mas está livre dos efeitos do apego. Os objetos dos sentidos existem, o prazer existe, mas a mente não é influenciada por rāga em direção a eles. Em rāga existe a escravidão aos efeitos do apego, mas com o cultivo de vairāgya, ocorre à libertação desses efeitos. Em dveṣa existe a escravidão aos efeitos da dor, mas com o cultivo de adveṣa, ocorre à libertação dos efeitos da dor.

Vairāgya é uma atitude mental; é um estado de consciência e de mente desperta através do qual você pode testemunhar rāga, os apegos e desejos. Tendo se transformado em uma testemunha, você pode reconhecer sua utilidade ou inutilidade, modificando seu comportamento e pensamentos em concordância com um discernimento mais refinado «viveka». Uma pessoa que compreende a necessidade ou a superficialidade dos objetos dos sentidos e modifica sua vida apropriadamente para conquistar um estado de equilíbrio, pode ser chamado de yogī.

Uma pessoa que prática āsanas ou meditação não pode ser chamada de yogī, da mesma maneira que uma pessoa que estuda ciência não pode ser chamada de cientista ou uma pessoa que estuda história não pode ser considerada uma historiadora. Um estudante de ciência somente será considerado um cientista quando ele atingir proficiência total em sua área de estudo. Da mesma maneira, um yogī é aquele que realizou o pensamento e a sabedoria do Yoga, que começa com vairāgya. Este é o primeiro capítulo do Yoga para o praticante sério desta cultura.

Os praticantes de Yoga estão divididos em muitos grupos. Uns são praticantes caprichosos. Eles vêm ao Yoga a fim de encontrar a cura para suas doenças, mas uma vez que a doença seja tratada e curada, eles deixam o Yoga em busca de outra coisa. O praticante sério é aquele que tenta levar sua vida pelo caminho do sādhanā enquanto contempla os vários aspectos do Yoga a fim de conquistar um resultado positivo, uma mente positiva e um corpo saudável, sempre no caminho da realização do potencial de força infinito que faz sua morada no interior de cada ser humano. Tal praticante sério, não inicia sua prática com āsana, prāṇāyāma, yama, niyama, jāpa ou dhyāna, mas com vairāgya. Primeiro é necessário saber como se livrar do estresse, dores, dissipação da energia mental e problemas que surgem na vida e só existe um caminho para isso: deixe de lado aquilo que está lhe acorrentando, lhe escravizando, lhe prendendo.

Imaginem uma pessoa segurando o tronco de uma árvore dizendo: «esta árvore me prendeu, por favor, alguém me ajude, preciso me libertar.» Todos se encontram nessa condição! O ser humano segura a árvore e diz: «eu não sou capaz de me libertar, minha família não me deixa ser livre, a sociedade não deixa eu me libertar, o mundo não me deixa libertar, os prazeres e os objetos dos sentidos não deixam com que eu me liberte.» Lembrem-se, nada e ninguém está fazendo de você um prisioneiro, é você mesmo que está se apegando as coisas e isso é rāga se manifestando em sua vida.

Todos são acometidos pelo apego a diversão, prazer e completude promovidos pelos desejos. Existem pessoas que viverão dessa forma, apegadas, até o fim de seus dias. Pode ser até a lei do destino agindo nessa questão e não importa como, ninguém poderá impor nada nesse caminho. Mas uma vez que o pensamento de se libertar da dor e do sofrimento nasce na mente e o desejo de que isso se realize ocorra, o primeiro método a ser seguido é vairāgya.

Vairāgya tem de ser cultivada por um longo período de tempo. Não é algo que se adquire através da prática. Ela precisa ser cultivada e isso é um processo de educação mental. A fim de conquistar vairāgya, seja um observador atento e tenha a mente clara sobre as associações e apegos que trazem completude ou discórdia na vida. Identifique ambos e permaneça indiferente aos aspectos positivos e negativos da vida. É dessa maneira que vairāgya pode controlar o comportamento da mente e suas associações. É um processo de verificação da mente grosseira, sempre buscando completude sensorial, emocional e física. Essa é uma perspectiva mental sob o panorama da consciência.

Abhyāsa

O segundo método para controlar a mente é abhyāsa, que significa repetição, prática constante. Que tipo de prática? A prática para regular a mente. Śrī Kṛṣṇa disse na Bhagavadgītā «II: 58»:


yadā saṃharat cāyaṃ kūrmo’ṅgānīva sarvaśaḥ |
indriyaṇīndriyārthebhystasya prajñā pratiṣṭhitā.

E quando, como uma tartaruga que recolhe totalmente [seus] membros, [a pessoa] é capaz de recolher os órgãos dos sentidos [retirando-os] de seus respectivos objetos, seu conhecimento é firme.

Esta é a prática executada a fim de se controlar as faculdades mentais. Śrī Kṛṣṇa nos informa que a mente está conectada aos objetos dos sentidos. Ela segue os sentidos onde quer que eles vão. Portanto, retraia a mente impedindo que ela siga a torrente dos sentidos. Se os olhos veem algo prazeroso, reconheça-o. Mas ao mesmo tempo diga para si mesmo: «nossa, que bonito, realmente é algo belo de se apreciar», e pare por aqui! Reconheça e aceite, e pare por aqui! Não deseje o objeto contemplado. Não fique obsecado por ele. No momento em que você começa a desejar, imediatamente torna-se obsecado pela necessidade de possuir o objeto. Se os ouvidos escutarem algo agradável, reconheça e aprecie o som, mas não se apegue a ele. Se o nariz sentir o cheiro de algo agradável, reconheça e aprecie, mas não anseie por ele. Neste caminho, gradativamente você irá retrair a mente, impedindo que ela siga o fluxo dos sentidos e evitando que ela crie mais desejos e expectativas.

Neste exato momento sua mente é escrava de seus sentidos. Quando a mente se torna escrava dos sentidos, os sentidos também se tornam escravos da mente. Eles se integram e tornam-se apenas um. Não existe mais a distinção entre a experiência sensorial e a experiência mental. Se você olha algo delicioso de se comer, sua mente imediatamente começa a desejá-lo. Sua mente fundiu-se com o desejo, com a visão, apetite, paladar... tudo.

Lembrem-se: a mente e os sentidos não são entidades distintas, coisas separadas, embora eles sejam considerados assim. Eles são o comportamento denso e sutil da mesma śakti, do mesmo poder. Os sentidos são o comportamento denso, grosseiro e a mente é o comportamento sutil do mesmo poder cósmico. Quando os sentidos estão ativos, a mente se funde a eles, seguindo-os por toda parte. Quando a mente se desassocia dos sentidos, como ocorre durante o sono à noite, ela se estabiliza por si mesma independente das experiências sensoriais. A mente continua a existir, mas os sentidos não.

No sono, aromas, visões e sensações não costumam nos incomodar, a menos que sejam extremas. Somente quando eles se tornam extremos é que tiram a mente de sua autoidentificação trazendo-a para dimensão grosseira. À noite nós escutamos inúmeros sons e eles não nos incomodam. Mas se o telefone toca, nós ficamos atormentados; a sonoridade extrema do toque tira a mente de sua identificação com o sono profundo. Da mesma maneira, somos picados por inúmeros mosquitos durante a noite e isso não nos incomoda, até o momento que nos sentimos desconfortáveis e somos forçados a nos reposicionar confortavelmente na cama.

Quando a mente está estabelecida em sua própria identidade, os sentidos têm de se tornar mais fortes para conseguirem tirá-la de sua harmonia. Isso é o que acontece na experiência do sono. No estado de vigília, os sentidos e a mente atuam e funcionam como uma única entidade, um único poder, uma única experiência. Se os sentidos forem retraídos de seus respectivos objetos no estado de vigília, a mente se tornará firme e estabelecida em si mesma. Śrī Kṛṣṇa utilizou o termo prajñā, não manaḥ.

tasya prajñā pratiṣṭhitā.

Seu conhecimento é firme.

Aqui Śrī Kṛṣṇa fala de uma faculdade específica da mente. Prajñā é a inteligência superior. Está relacionada a buddhi, a faculdade de distinção e escolha pelo gozo ou pelo sofrimento, o que faz com que está função da mente se torne a causa da agitação dos sentidos.

Os objetos dos sentidos ou pelos quais os sentidos desfrutam o mundo, sempre existirão. No início da criação, quando a vida ainda não havia se manifestado, algo existia. Os seres humanos ainda não habitavam este mundo, mas os objetos sim. Quando o ser humano deixa de existir, a criação continua, os objetos permanecem. A criação é feita de sujeito e objeto enquanto a vida é feita de prāṇa. Mesmo sem a presença dos seres humanos, os objetos continuarão a existir. No processo de criação o ser humano ganha vida para desfrutar dos objetos e quando seu tempo termina, ele parte e os objetos ficam. Portanto, as palavras de Śrī Kṛṣṇa querem dizer que os objetos dos sentidos sempre existirão, mas você tem de se esforçar para retrair seus sentidos. Assim como a tartaruga retrai os seus membros, você deve retrair sua mente. Essa é a prática «abhyāsa» que precisa ser executada. A sequência indicada na Bhagavadgītā é a mesma sequência do Pātañjala Yoga como exposta no Yogasūtra.

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