Mostrando postagens com marcador Mente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mente. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de novembro de 2013

A Mente & o Gerenciamento de suas Funções #2



. segunda parte .


Por Fernando Liguori


[Satsanga realizado durante os nove meses do Curso de Aprofundamento em Yoga ministrado pelo Instituto Kaula em 2011.]


A função de citta

A segunda função de mahat é citta, o aspecto da mente que abrange a memória, o inconsciente profundo, o solo onde as sementes dos saṃskaras são plantadas e nutridas. A atividade de citta opera em função das memórias e experiências obtidas no curso da vida e que se tornaram parte de nosso entendimento, natureza ou svabhava.

Quando olhamos para um objeto, citta torna-se ativa e busca nos arquivos da memória onde aquele objeto já foi visto. É a sua função trazer a clara luz o arquivo da memória onde aquela experiência estava guardada, mesmo que tenha ocorrido há muitos anos. O evento passado é recordado e experienciado novamente no presente, com toda clareza e pessoas envolvidas. Em uma fração de segundos o objeto é identificado! Neste momento, o arquivo da memória tornou-se parte da experiência presente.

É citta quem decide o que é desejável ou não para nós. Nossas memórias do passado nos ajudam a compreender melhor as interações do presente. Se olharmos um objeto que nunca tivemos contato, ele não terá significado ou utilidade para nós, mas se já tivemos alguma experiência com ele, imediatamente a memória trará lembranças de como utilizá-lo. Uma faca pode ser utilizada para cortar vegetais, esfaquear alguém ou servir como instrumento de corte em uma operação para salvar uma vida. Contudo, se não tivermos nenhuma memória destas três funções da faca, não seremos capazes de utilizá-la. Se você utiliza a faca apenas para cortar vegetais e nunca esfaqueou ninguém, então essa memória não estará impressa na fita de sua memória, citta. Portanto, a conexão com o mundo, os sentidos e seus objetos, o reconhecimento do meio ambiente, escolhas, gostos e desgostos, ocorrem por meio de citta na medida em que ela traz a tona impressões passadas e memórias.

Citta é o campo de atuação ou contém as expressões de prazer e dor. A experiência de prazer ou dor não está sob a atividade de buddhi ou manas, mas sim de citta. Uma lembrança da infância pode ser prazerosa ou dolorosa e seja lá onde ou quando essa memória precipitar, sua emoção correspondente também se precipitará. Uma memória prazerosa trará felicidade; uma memória dolorosa trará sofrimento. Dor e prazer, portanto, surgem de citta. Quando alguém lhe pergunta, «como está se sentindo?» e você responde, «estou feliz», não é manas, buddhi ou o ego falando, mas citta analisando e respondendo. Citta lhe incita a dizer, «estou feliz», pois ela analisou o momento como bom ou ruim através das experiências passadas. Citta aprecia e nega; ela define o que é bom e o que não é; ela é responsável por suas associações: às vezes se associa e às vezes se desassocia, dependendo daquilo que ela vê como bom ou ruim, prazer ou dor.

O gerenciamento de citta através da meditação

Muitos problemas psicológicos têm suas raízes em citta; eles não estão enraizados nos reinos de buddhi ou nos domínios de manas, muito menos são uma expressão do ego. Muitos problemas psicossomáticos estão firmemente enraizados em citta. Existe uma história que aconteceu com um médico australiano que chegou no aśram de Swami Satyananda na década de setenta que ilustra esse tópico.

O médico em questão sofria de asma desde a infância. Naquele período, a medicina não oferecia quase nenhum tipo de ajuda. Portanto, os medicamentos disponíveis não ajudavam muito o pequeno menino. Na medida em que crescia, tomou a decisão de se formar em medicina e se especializar em doenças que acometiam o sistema respiratório, a fim de que pudesse, ele mesmo, vencer a doença. Contudo, a asma só se agravava na medida em que ficava mais velho.

Em 1976 ele conheceu Swami Satyananda e tornou-se seu discípulo. Na época, swamijī disse a ele, «até o momento você usou inúmeros medicamentos que não surtiram efeitos, não é mesmo?» O médico respondeu, «é verdade, todo medicamento que tomei falhou em me ajudar a vencer a asma.» Swamijī disse, «a partir desse momento medite.» O medico iniciou uma prática meditativa que incluía āsana, prāṇāyāma e o estilo de vida yogī em um aśram.

Um dia ele teve um flash, uma visão durante sua meditação. Uma memória precipitou-se na superfície da mente onde ele se viu como um bebê nos braços de uma babá. A babá lhe forçava uma comida que ele não desejava garganta abaixo. Ela lhe ameaçava, «se você não comer eu vou contar a sua mãe e ela lhe colocará de castigo.» Como um bebê ele não podia analisar ou entender o que ela dizia, mas escutou as palavras «castigo», «contar» e «mãe». Então engoliu a comiga e um bloqueio se formou.

Essa foi a causa de sua desordem respiratória. Depois de descobrir essa memória durante a meditação, ele se viu livre do constrangimento dos sintomas da doença. Tornou-se um swami renomado e autor de livros inspirados como O Gerenciamento da Asma & Diabetes Através do Yoga. Quando retornou a Austrália, se submeteu a alguns testes e descobriu estar livre da asma. Essa é a história de Swami Shankardevananda Saraswati.

O que esse incidente indica? Uma memória em citta tornou-se a causa de seu problema de saúde. Quando ele reconheceu essa memória, imediatamente a causa do problema foi reconhecida e removida. Ocorreu uma aceitação consciente de algo que tivera acontecido há muito tempo, o que o levou a encontrar paz em seu interior. Essa é a função de citta.

Gostos e desgostos também são uma função de citta. Quando dizemos, «eu gosto disso, eu não gosto daquilo, desejo isso, não desejo aquilo», é uma expressão de citta. As memórias nos permitem apreciar, gostar, aceitar e desejar da mesma maneira que rejeitar, negligenciar, desgostar e não desejar. Quando vamos a um restaurante e pedimos o cardápio, selecionamos imediatamente os sabores que experimentamos e apreciamos anteriormente. Se nos é oferecido algo novo, a tendência imediata é hesitar. Podemos vacilar, «talvez eu não goste disso» ou «sei lá se isso é ruim». Na medida em que não temos a memória, a dúvida surgirá. Uma vez que já tenhamos memória de algo, a resposta sempre é clara.

Para gerenciar as manifestações e expressões de citta, o caminho é a meditação. Quando swamijī instruiu o médico na prática da meditação, os véus de sua mente caíram um a um e ele pode ver a memória de sua infância e descobrir a causa de sua doença. Uma condição que não pode ser curada através de nenhum medicamento foi superada através da meditação. Swami Satyananda sabia que a doença que lhe acometia não era de natureza fisiológica, ele sabia que ela estava enraizada em citta, em uma impressão, uma memória. As escrituras do Yoga nos ensinam que devemos meditar com regularidade para gerenciar as atividades de citta e a percepção dos gostos e desgostos que surgem dela.

Continue lendo >>

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Descobrindo a Meditação



Por Fernando Liguori


[Texto retirado da apostila do Módulo I da Oficina de Meditação, edição 2010, ministrada pelo Instituto Kaula. Este satsanga foi realizado no anfiteatro da Escola de Música Pró-Música, ministrado pelo Instituto Kaula em 13 de novembro de 2009.]


Na medida em que experimentamos este nível profundo
de meditação, descobrimos que a natureza da mente
é meditação e que isso, por si mesmo, é uma
experiência iluminadora.

Swami Niranjanananda Saraswati


Quase todas as disciplinas espirituais praticam alguma forma de meditação. Ordinariamente, a meditação é tida como uma forma de pensamento combinado com palavras, imagens ou conceitos. Mas a meditação não é pensar sobre alguma coisa. A experiência meditativa pode parecer bem subjetiva – minha consciência, meu estado de alerta. Entretanto, quando observamos o processo meditativo com mais profundidade, descobrimos que a consciência não é nem subjetiva e nem objetiva; da mesma maneira, ela não pode ser analisada conceitualmente. Consciência é um estado de abertura que ocorre quando a mente é deixada funcionar a sua própria maneira, sem interrupções, distrações ou expectativas.

A consciência meditativa é como um espaço completamente vazio. Mas não o espaço como nós comumente entendemos, pois a consciência não é um lugar e não possui uma forma particular. Este espaço não está dentro ou fora do corpo. Não é mental ou físico e ainda, ao mesmo tempo, é um sentido profundo e integrado de estabilidade, franqueza, sinceridade e equilíbrio – que é a experiência da meditação em si mesma.

Tradicionalmente, o início da meditação envolve certas práticas tais como dhāraṇā (concentração), visualização de imagens, entoação de mantras etc. Os professores enfatizam a necessidade de técnicas diferentes, dependendo das necessidades dos praticantes. Por exemplo, um professor pode pedir a um estudante para ir sozinho a um lugar quieto e permanecer ali completamente em silêncio por meia hora ou vinte e cinco minutos. Da mesma maneira, ele pode pedir a outro estudante que vá as montanhas e lá entoe mantras em voz alta. Outro estudante pode ser instruído em fixar seu olhar na chama de uma vela mantendo os olhos o tempo todo abertos.

Geralmente, acima de tudo, nossa prática deve promover a calma e o relaxamento como bases fundamentais ao desenvolvimento da estabilidade e concentração. A meditação nos ensina a sermos calmos e felizes, aproveitando a vida em sua plenitude, com satisfação e o mais importante, auxilia no gerenciamento das faculdades mentais para que efetivamente possamos lidar com os problemas tanto físicos quanto emocionais ou mentais com equilíbrio e equanimidade. Nossa vida se torna equilibrada quando somos capazes de integrar qualquer experiência da vida com a prática meditativa. Podemos incluir em nossa prática o regozijo e a felicidade, bem como a fúria, o ressentimento, a frustração e a infelicidade, todas as emoções que sentimos dia-a-dia. Podemos transformar todas as nossas emoções em uma prática meditativa calma e relaxada.

No início, a meditação parece algo simples: aquiete seus ares internos, mantenha-se calmo, imóvel, relaxado etc., seguindo alguma instrução específica. Contudo, na medida em que refinamos o processo meditativo, percebemos que a meditação envolve muito mais do que apenas relaxar e lidar com seus pensamentos e emoções. A Meditação é um processo de busca pela verdade ou pelo entendimento, é a tentativa de descobrir a natureza da existência e da mente humana. Para obtermos tal conhecimento precisamos mergulhar profundamente na meditação para descobrirmos o que somos de verdade.

Mas como você medita? Primeiro, o corpo deve estar imóvel, estável, aquietado. Fisicamente, você deve relaxar seus músculos e se desprender de todas as tensões. Sua postura deve ser confortável para que permaneça imóvel, sem se mexer em hipótese alguma. A respiração deve ser gentil, suave. Inspire e expire suavemente. Na medida em que você relaxa mais o corpo, a respiração, mente e emoções, o sistema nervoso vai se aquietando também, naturalmente. Com o sistema nervoso calmo e tranquilo, a mente torna-se calma e tranquila, a corrente de pensamentos cessa e você experimenta o silêncio interior. Existem várias maneiras de se atingir este estado, mas para não se perder no mundo destas instruções, apenas relaxe naturalmente seu corpo, respiração e mente. Assim, o corpo torna-se firme e imóvel, a respiração equilibrada e a mente e os sentidos em paz. Neste momento você será capaz de sentir seus sentidos aflorarem completamente. Nesse caminho notará que a meditação não é uma tarefa complicada ou algo exótico, importado de outra terra, mas ao contrário, ela é parte de nossa natureza.

Não existe a necessidade de se tentar chegar a algum lugar, atingir alguma meta. Essa tentativa pode se tornar frustrante ao perceber que ela se tornou um obstáculo ao processo do relaxamento. Punir a si mesmo ou a tentativa de seguir um conjunto rígido de instruções pode causar problemas, pois quando existe esforço em demasia e nenhum resultado é obtido – ou pelo menos percebido – cria-se expectativas internas, o que atrapalha na condução do silêncio interior. Quando você tenta conceitualizar a experiência da «meditação perfeita», o resultado é a criação de um estado sem fim de conflito e diálogo interno.

Por conta dos conceitos serem necessários nos estágios iniciais da meditação, desde o início, o praticante é separado da experiência. Mas com o tempo, na medida em que ele se envolve com os processos meditativos, descobre que a meditação vai muito além de qualquer conceitualização. Se ele continuar relaxando e acalmando sua mente, eventualmente nenhum esforço será necessário para praticar a meditação.

Quando você está aprendendo a meditar, o melhor é partir sempre de si mesmo, experienciar a si mesmo, em toda sua totalidade, sem rejeitar ou excluir qualquer parte de si. Todos os seus sentimentos e pensamentos podem fazer parte de sua meditação, você pode experimentar cada um a sua maneira e quando estiver preparado, siga em frente, deixando-os de lado. Neste caminho, você pode começar a descobrir os vários níveis sutis e estados da mente. A mente simplesmente observa seu processo natural; cada pensamento, desejo e motivação se torna um apoio natural a este tipo de meditação. Em certo nível, haverá a distinção entre aspectos negativos e positivos, mas na medita em que o processo meditativo se aprofunda, você não mais perceberá essa discriminação relativa, se preparando para experiências mais refinadas. A meditação transcende o dualismo. Tudo o que você experiencia pode ser visto como perfeito, pois a qualidade da perfeição reside na mente e não nas coisas externas.

Quando memórias desconfortáveis aparecem, a tranquilidade é abalada, mas essa sensação passa se um estado de alerta total, um estado de consciência plena estiver sendo exercido, pois nele é impossível se apegar a qualquer pensamento seja lá sua natureza. É importante permanecer em um estado relaxado e quieto sem pensar «o que é a meditação?» ou «será que estou meditando?» Simplesmente aceite a si mesmo. Você não está tentando aprender a meditação, você é a meditação. Todo o seu corpo, respiração, pensamentos, sentidos e consciência, todo seu ser... tudo é meditação. Não se preocupe em estar perdido. Tudo em você, todo seu campo energético é meditação. Assim, com o tempo o praticante descobre que não é necessário seguir nenhuma instrução ou se preocupar em atingir qualquer experiência.

Swami Niranjan certa vez disse que «na medida em que experimentamos este nível profundo de meditação, descobrimos que a natureza da mente é meditação e que isso, por si mesmo, é uma experiência iluminadora.» Essa experiência é livre de tudo e ao mesmo tempo se manifesta em tudo. Isso, em si mesmo, é a liberação.


Continue lendo >>

sábado, 9 de novembro de 2013

Yoga & o Gerenciamento da Mente



Por Fernando Liguori


[Satsanga realizado durante a abertura do Curso de Aprofundamento em Yoga ministrado pelo Instituto Kaula em 2011.]


O Yoga é a filosofia da expansão da consciência e liberação das energias e potenciais. Como conquistar e passar por esta experiência sempre foi à busca fundamental da humanidade. Vamos começar do início.

Nós nascemos neste corpo, mas qual é a nossa real experiência de vida? Como compreendemos a vida e como melhoramos a qualidade de nossas vidas? Muitas pessoas têm definido a experiência da vida como consciência e energia interagindo com o mundo dos objetos e os sentidos. As pessoas têm tentado definir a consciência, a mente e como os sentidos, desejos e ideias influenciam nossa personalidade. Vamos observar este processo de um ângulo diferente. A vida que vivemos, a vida que experimentamos, é uma expressão de nossa mente. Nós vivemos de acordo com os ditames de nossa mente. A filosofia que aceitamos e vivemos está incrustada em nossa mente. Se você está feliz com sua vida, então sua mente é feliz. Se você está sofrendo, este é um reflexo da natureza negativa predominante na mente em dado momento. A dor e o prazer ou a ignorância e a sabedoria que experienciamos são expressões da mente. De acordo com os princípios do Yoga, a mente tem de ser gerenciada para que possa se tornar mais criativa, dinâmica, vibrante e desperta.

A descrição clássica do Yoga é um método de gerenciamento da mente. Muitas pessoas têm definido o Yoga como a união da consciência individual (ātman) com a consciência mais elevada (Brahma). Muitas pessoas têm experienciado o Yoga na forma de exercícios físicos, o que provê uma experiência de completude e bem-estar. Muitas pessoas têm praticado meditação, descobrindo que são capazes de gerenciar suas mentes, problemas, fobias, complexos e inibições de maneira mais efetiva, desenvolvendo maior entendimento acerca de si mesmas.

O Yogasūtra de Patañjali, o texto clássico e de maior autoridade sobre o assunto, define o Yoga em três afirmações específicas. Há cinco mil anos foi perguntado ao ṛṣī Patañjali: «O que é Yoga?» Ele respondeu: «O Yoga é nada além de autodisciplina.» A ele perguntaram novamente: «Qual é o resultado final desta disciplina?» Ele disse: «Através da disciplina yogī é possível gerenciar as diferentes manifestações da mente que limitam nossas capacidades.» E o resultado? Patañjali diz que «então você realizará sua verdadeira natureza.»

A influência das qualidades e fraquezas

Os seres humanos possuem naturezas predominantemente diferentes que alteram o comportamento normal e os padrões da mente. De uma perspectiva yogī, a personalidade é governada por certas qualidades inerentes. Estas qualidades são conhecidas como clareza mental, força de vontade, consciência, concentração e entendimento, bem como a aplicação da sabedoria, positividade e otimismo no dia a dia. A força da mente é a discriminação, o conhecimento da diferença entre o que é certo e o que é errado. Um comportamento positivo e criativo reflete a qualidade natural da personalidade e funções da mente.

Entretanto, nossas fraquezas conduzem mais a nossa mente do que nossas qualidades. Estas fraquezas são o medo, insegurança, inibição, pensamento turvo, comportamento inapropriado, ideias e conceitos mal entendidos, egoísmo e ignorância. Normalmente nos encontramos tão imersos em nossas fraquezas que nos esquecemos de nossas qualidades. Os medos, obsessões, inseguranças e complexos se manifestam mais do que o otimismo e as qualidades criativas.

Nosso comportamento é influenciado por estas fraquezas. Quanto mais fraca é a pessoa, mais egoísta ela se torna. Quanto mais forte é a pessoa, mais abnegada ela se torna. Se você é uma pessoa insegura, então tentará construir uma imagem diferente de si mesmo, uma imagem otimista que transmita o quão forte você é. Contudo, quanto mais você tenta manter esta imagem de que é uma pessoa segura e não se abala pelas influências externas, mais egoísta se torna. Mas se você é uma pessoa positiva, otimista, dinâmica e criativa, não há nada com o que se preocupar. Você não é o centro do mundo, mas um participante da grande aventura da vida. Na medida em que se torna mais desapegado nada pode conectá-lo a uma imagem egoísta. Abnegação, desapego na mente, na vida, significa que você é capaz de compreender e apreciar o sofrimento, necessidades e aspirações de outras pessoas a fim de auxiliá-las a atingir a completude. A natureza é abnegada. As árvores não comem seu próprio fruto e o rio não bebe sua própria água; isso é somente para os que têm fome e sede. Nem mesmo os animais vivem com a mesma consciência do ego auto-centrado como os seres humanos.

Gerenciando ambições e necessidades

A ambição é outro importante componente. Quais são as nossas ambições e necessidades? É o papel da ambição apenas satisfazer nossas necessidades e promover a sensação de satisfação e felicidade? Existem ambições práticas e ambições nada práticas. As ambições práticas são baseadas em nossas necessidades e no impulso de satisfazê-las. Ambições nada práticas são aquelas baseadas nos impulsos que buscam mais poder e ambição, um verdadeiro jogo em nosso interior. Existem ambições paralelas, mas não somos capazes de distinguir entre as necessidades e as ambições. De um lado nós possuímos qualidades e fraquezas e do outro, ambições e necessidades. De um lado as fraquezas se tornam predominantes e nos tornamos inconscientes de nossas qualidades. Nos tornamos pessoas confusas sem saber o que fazer ou como gerenciar as situações da vida. Do outro lado, as ambições se tornam predominantes e passamos a ignorar muitas de nossas necessidades.

Se você olhar para si mesmo objetivamente, notará que seus medos e inseguranças representam suas fraquezas e seu desejo por se tornar algo na vida representa sua ambição. Olhando atentamente a sociedade notamos que nos hospitais, médicos, psiquiatras e psicoanalistas, todos, sem exceção, lidam com as áreas da vida que perdemos controle. Um bom psiquiatra ou psicoanalista irá nos auxiliar a encontrar nossas qualidades para que possamos superar as dificuldades, o que indica que perdemos contato com nossas qualidades internas inerentes como o positivismo e o otimismo. Nós também perdemos a consciência de nossas necessidades e nos encontramos na busca por uma miragem da felicidade em uma competição insana.

Bem, nós temos de viver com nossas mentes e temos de usá-la para melhorar a qualidade de nossas vidas. Nossa discussão aqui não é sobre como gerenciar nossos pensamentos, emoções, desejos ou expectativa, mas ao contrário, como gerenciar as qualidades, fraquezas, ambições e necessidades que influenciam a natureza de nossa personalidade e governam as expressões e manifestações de nossas mentes. Se um destes quatro padrões for forte, então nosso comportamento, construtos de pensamento, emoções, vontade e expectativas serão influenciadas. Aqui o Yoga oferece um sistema muito claro de meditação.

Meditação: um estado de mente, não uma prática

No Yoga, a meditação «dhyāna» é o sétimo passo, não o primeiro. Quando entramos para escola, primeiro temos de cursar o ensino fundamental, depois o ensino médio e então a universidade. É um avanço em graus. O Yoga deve ser tratado da mesma maneira. No caminho, você tem de começar com o primeiro passo, não com o sétimo, pulando as outras etapas. Contudo, existem pessoas tão entusiasmadas com a prática da meditação que querem começar no sétimo estágio. Eles praticam algumas técnicas de concentração e meditação e enquanto a prática se parece satisfatória, eles ainda se mantêm presos nos mesmos padrões e conflitos mentais. Isso é possível? É possível meditar verdadeiramente e ainda sim a mente estar vagueando delirante e sem controle algum?

Sob uma perspectiva yogī, a meditação não pode ser ensinada ou praticada. A meditação é um estado de experiência, um estado de mente. Quando você se deita para dormir, a noite, imediatamente entra para um estado onde não se encontra consciente de si mesmo ou de que está dormindo. Ocorre uma dissociação completa entre você, o tempo, o espaço e os objetos. Quando acorda, imediatamente toma consciência de si mesmo, de sua personalidade, do ambiente e do mundo. Assim como o sono e o estado de vigília são um estado de mente, da mesma maneira a meditação é um estado de mente. Portanto, a meditação não pode ser praticada. Nós temos de retraçar e reeducar a personalidade e a mente. O processo do desenvolvimento de um estado meditativo começa com a consciência até a concentração.

Relaxamento

No Yoga, a sequência para aperfeiçoar as diferentes naturezas da mente é pratyāhāra, relaxamento e o desenvolvimento da consciência, seguido por dhāraṇā, a concentração. Pratyāhāra é o início de um entendimento interior de nossa verdadeira natureza. A prática de pratyāhāra começa no relaxamento. Normalmente, nos encontramos psicologicamente tensos, mas em um nível muito sutil, imperceptível para mente consciente. A mente consciente, a mente que interage com o mundo, está apenas consciente das áreas que estão predominantemente sob o escopo da consciência. Neste exato momento, existem pessoas distintas, sons e movimentos dentro desta sala, mas você está focado na preleção e portanto não está consciente das experiências periféricas. Se você for gravar uma música em um estúdio terá de usar um computador para tirar os sons de fundo, mudando a qualidade do som para que ele fique limpo.

Similarmente, em pratyāhāra, o primeiro estágio é o relaxamento, onde você se torna consciente de si mesmo e filtra o material residual que obscurece sua percepção. Neste caminho você consegue relaxar as tensões psicológicas e inconscientes que atrapalham sua criatividade. As pessoas que praticam relaxamento e cultivam um estado de consciência tornam-se diferentes em suas atitudes, o processo pensante e entendimento da vida. No relaxamento, começamos por desenvolver a consciência e nos movemos ao entendimento das diferentes situações da vida, em todos os aspectos. Essa é a primeira prática ou estágio a ser aperfeiçoado antes de passar ao próximo, que é a concentração.

Concentração

Concentração, dhāraṇā, significa foco nos processos mentais e energias. Também significa identificação total. Existe a história de um professor que decidiu testar a habilidade de seus estudantes na arte da arquearia. Ele colocou um pássaro no galho de uma arvore. De um a um, chamou seus estudantes, pedindo que pegassem o arco e a flecha e mirassem no olho do pássaro. Quando os estudantes estavam prontos para lançar a flecha, o professor perguntava o que eles estavam vendo. Alguns diziam «eu vejo o senhor», outros «eu vejo a árvore e o pássaro» e ainda outros diziam «eu vejo o pásaro, a mata, o céu e as nuvens». Nenhum destes estudantes passou no teste. Contudo, apenas um estudante quando foi inquirido pelo professor foi capaz de dizer: «não vejo nada além do olho do pássaro que tenho de acertar». Este passou no teste. Coloque a si mesmo nesta posição. Se você vê tudo, isso representa um estado disperso de mente, incapaz de focar o alvo. O estudante que apenas viu o olho do pássaro logicamente via tudo, como seus colegas, mas sua concentração estava direcionada apenas em um ponto. Este é o estado de concentração.

Se cada um de vocês conseguir atingir este estado de concentração, irão experimentar a paz absoluta em toda parte, mesmo no meio de um tumultuado conflito. De outra maneira, vocês nunca encontrarão a paz, mesmo na mais remota das cavernas no alto dos Himalaias. Swami Satyananda dizia que não há paz nos Himalaias da mesma maneira que não existe alarde e confusão no mundo. Onde quer que esteja, a paz estará dentro de você e na expressão de sua mente. O Yoga ocupa-se do relaxamento e da concentração na forma de pratyāhāra e dhāraṇā. Essa reeducação da mente que ocorre nos estados meditativos pode acontecer espontaneamente, sem esforço, no curso do tempo. A meditação permite nos tornarmos nós mesmos de uma vez por todas.

A vida é uma expressão da mente

O propósito da meditação é atingir um estado de equilíbrio onde quer que estejamos, capazes de gerenciar o comportamento da mente que se manifesta como um super-entusiasmo ou a falta total dele, confiança em si mesmo ou total falta de confiança. Para atingir esta meta, é necessário seguir a sequência definida pelo Yoga e não pular direto a sétima etapa da prática. Se você seguiu a sequência de auto-observação e o cultivo da consciência de forma apropriada, será capaz de compreender seu envolvimento e interação com o mundo dos sentidos e objetos. Se você for capaz de se conectar com suas qualidades e superar suas fraquezas e ainda compreender a diferença entre suas necessidades e ambições, então será capaz de melhorar a qualidade de sua mente e portanto de sua vida. Este é o ensinamento clássico e tradicional do Yoga passado a frente de geração a geração através de mestres ou seres iluminados. A vida é uma expressão da mente. Se pudermos cultivar qualidades mentais como a positividade, criatividade e otimismo, então toda experiência de vida muda. O Yoga provê esta centelha de inspiração. Utilizem essa centelha do Yoga para iluminar suas mentes, clareando suas vidas fazendo com que vivenciem felicidade e completude.

Continue lendo >>

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A Mente & o Gerenciamento de suas Funções #1


A Mente & o Gerenciamento de suas Funções

. primeira parte .


Por Fernando Liguori


[Satsanga realizado durante os nove meses do Curso de Aprofundamento em Yoga ministrado pelo Instituto Kaula em 2011.]


O tema de nosso último encontro foi A Evolução da Consciência & Energia. Naquele dia nós falamos acerca do nascimento da mente, quer dizer, sua fonte e os mecanismos de suas funções ou compartimentos. Hoje nós vamos dar continuidade ao estudo da mente. O ocidental tem uma maneira muito peculiar de enxergar a mente. Ele não consegue ver o panorama total da mente e as expressões de suas funções. Quando eu peço a vocês, na hora da condução da prática meditativa, para que estejam conscientes de seus corpos, o que vem a mente na hora? Todo o corpo e seus sistemas ou apenas uma parte dele, um órgão, um membro etc.? Não, quando pensamos no corpo, imaginamos sua totalidade. É a mesma coisa com a mente. Quando pensamos na mente devemos imaginar sua totalidade, da mesma maneira que fazemos com o corpo. Mas quando o ocidental pensa na mente, imagina apenas uma fração dela, pensando ser toda a sua expressão, mas não é. O que o ocidental identifica como mente é o que chamamos de manas, um aspecto da mente, um aspecto «inferior» cujas funções são saṅkalpa e vikalpa, quer dizer, claridade e confusão, foco e distração. Isso ficará mais claro daqui a pouco.

Hoje nós iniciamos a prática pela manhã com o mantra śāntiḥ, um mantra que nos coloca no descanso interior, paz e indiferença às manifestações externas a mente. Propus de iniciarmos o dia com este mantra porque ele representa o saṅkapa de qualquer aspirante que deseja melhorar sua qualidade de vida. Cada verso deste mantra é uma aspiração, uma afirmação, um objetivo a ser conquistado na vida. Ele diz: leve-me do irreal ao real; leve-me das trevas à luz; leve-me da mortalidade a imortalidade; que o bem-estar prevaleça; que a totalidade prevaleça; que a auspiciosidade prevaleça; que todos os seres sejam felizes e contentes. Mas qual a finalidade deste saṅkalpa? Sua finalidade é mudar a qualidade e a expressão da mente. A validade inerente ao saṅkalpa é sua eficácia, pois qualquer expressão, injunção ou afirmação que não mude a qualidade e o comportamento da mente não passa de um pensamento, um desejo ou devaneio onde o sonhador acorrentado torna-se incapaz de realizá-lo na vida.

Todos nós sabemos o que um saṅkalpa, correto? É uma energia focada e concentrada da mente. Este poder ou força da mente tem de ser domado, subordinado e canalizado. E isso não é fácil! A vida é uma expressão da mente. É a mente que guia cada ação e reação, ideia e pensamento, desejo e expectativa. Portanto, ela é o fator de maior motivação, mas na mesma medida é um princípio desalentador.

A fim de conhecermos a mente, temos de saber de onde ela vem, qual é a sua fonte. No nosso último encontro nós falamos que a fonte da mente é a consciência em uma dimensão trans-sensorial. Essa é a dimensão da «substância primordial». Para que todos possam entender, vou chamar essa substância primordial de Deus. No contexto do hinduísmo, Brahman. Nesta substância primordial ou Deus, duas forças coexistem em harmonia: consciência e energia. Estes dois princípios em inteiração proporcionam o entendimento mental e a experiência sensorial do mundo. Toda criação e a vida são expressões da interação entre consciência e energia. A energia se manifesta na vida como o prāṇa e a consciência como a mente. A vida emerge da inteiração destas duas forças nas dimensões cósmicas da existência. Assim, cada vida é governada por prāṇa e mente.

Sendo a vida um processo de interação entre estes dois princípios ou forças, a mente e prāṇa estão manifestos em toda parte. Uma bactéria possui mente e prāṇa. Não cérebro, mas mente! Animais, vegetais, minerais etc., tudo, absolutamente tudo, possui mente e prāṇa. O corpo humano é governado e dirigido por prāṇa e mente. Portanto, a cognição ou consciência cósmica é representada pelo princípio da consciência. A consciência «contida» ou individual é conhecida como mente.

Podemos nos arriscar a dizer que a vida é uma expressão da mente, pois tudo o que nós experienciamos na vida é a mente. É um equívoco confundir a mente com a consciência. Por exemplo, uma árvore possui um tronco. Este é seu corpo, seu suporte. Do tronco emergem diferentes galhos. Estes galhos fazem parte do troco. Eles são feitos da mesma substância que o troco da árvore, mas suas funções são outras. Da mesma maneira, a mente é composta do mesmo estofo da consciência, mas não é a consciência; ela deriva da consciência. É uma ramificação, uma expressão da consciência, guiada pelos canais das correntes sensoriais.

O Sāṃkhya em sua teoria evolucionista considera a mente como uma parte integral da criação. Essa escola de pensamento atesta que a primeira entidade em existência eterna é Brahman. Essa entidade ou identidade incorpora em si mesma as faculdades e poderes da energia e consciência. Na tradição espiritual da Índia, Brahman é sempre identificado como a Consciência ou Espírito Cósmico.

Como falei a pouco, no estado de Brahman, energia «śakti» e consciência «cetana» permanecem em absoluta harmonia e integridade. Contudo, quando a vida emerge devido a uma incognoscível pulsação «spanda» na dimensão da energia e consciência, ela adquire o poder destes dois catalisadores para criar e se estabilizar. Assim, o corpo se torna matéria, governado pelo prāṇa, seu componente ou Śakti manifesto. Tudo o que é visível como forma, matéria ou corpo é governado, dirigido e controlado por esta Śakti na forma do prāṇa. Além da matéria ou corpo material, existe uma força sutil responsável pela evolução e experiência da verdadeira natureza humana e do espírito, e ela é uma com o cosmos. Este poder ou força sutil é a consciência, experienciada na vida como a mente.

Imaginemos a luz do sol. Ela se espalha uniformemente por toda parte. Mas quando passa pela janela da sala iluminando apena um local é percebida como um raio solar. O raio faz parte da luz do sol que a tudo permeia, mas quando ele entra na sala através da janela não dizemos: o sol está entrando pela janela. Mas sim, um raio do sol está entrando pela janela. Consciência e mente devem ser entendidas da mesma maneira. A mente é o aspecto manifesto da consciência. A consciência cósmica é indivisível, infinita, onisciente. Essa é sua forma essencial. Contudo, quando ela se manifesta no corpo no curso da evolução, a lei da natureza faz a sua parte e ela é experienciada na forma da mente. Portanto, o que é chamado de consciência nas dimensões cósmicas da existência é chamado de mente na vida, no corpo.

As upaniṣads descrevem Brahman como o cubo de uma roda, enquanto Śakti ou Pṛakriti como os raios da roda. Os raios são circundados por uma sólida esfera que os mantém unidos. Isso é a mente, mahat, a mente cósmica. Essa mente tem suas funções enquanto incorporação física. Através do gerenciamento destas funções, a paz interior é alcançada, abrindo caminho para fundação de uma verdadeira estrutura espiritual, equilibrada e pacificante. Nessa direção, o sādhanā mais efetivo na vida é o gerenciamento da mente, não a meditação. Um estado de consciência elevado se manifesta nas respostas que a mente tem em diferentes situações da vida. Mas esse é o objetivo do Yoga: melhorar a qualidade de vida para que nos tornemos conscientes de nós mesmos e de nossos potenciais, vivendo esses potenciais aqui, agora. Portanto, o objetivo último, assim me arrisco a dizer, não é a experiência da iluminação, mas o gerenciamento da mente. Quando a harmonia interior é experienciada, o Yoga se torna um estilo de vida no qual nos conectamos com todos os seres em espírito de serviço e compaixão.

A Mente e o gerenciamento de suas funções

Mahat significa «a grande mente». É o princípio mental mais elevado, cujas funções são: ahaṃkāra, o ego ou autoidentidade; citta, impressões, memórias e saṃskāras; buddhi, inteligência; e manas, a mente finita e sequencial. Essas quatro funções envolvem toda experiência da vida. O Sāṃkhya e o Yoga também se referem a mahat como antaḥ-kāraṇa, o instrumento sutil, meio ou agente que permite a experiência e a expressão da vida.

O princípio sutil da grande mente é o ego, ahaṃkāra. Não o ego no sentido pejorativo da palavra, expresso como arrogância, mas o ego no sentido de autoidentidade, autoconsciência, conhecimento de «mim mesmo», de «eu existo».

O ego se manifesta de quatro maneiras distintas: avidyā, abhiniveśaḥ, māyā e asmitā. O ego está conectado e sujeito ao movimento sinuoso dessas quatro expressões. Avidyā significa ignorância e uma das funções do ego é suprimir o conhecimento. Com a supressão do conhecimento, jñāna – a verdadeira gnose – não se manifesta; ao contrário, ajñāna, avidyā ou falta de conhecimento se tornam a expressão da vida. Se vocês observarem as pessoas arrogantes e egoístas, notarão que as portas para o aprendizado e portanto do conhecimento estão fechadas para elas, quer dizer, nelas. Elas não estão dispostas a abrir estas portas para compreender e apreciar qualquer outra realidade além de sua percepção condicionada. Avidyā influencia o comportamento e a percepção do ego. No estado de avidyā o que existe é escuridão total, falta de luminosidade. Como diz Swami Niranjan, «a luminosidade do ego intoxicado por avidyā é um brilho opaco no semblante humano».

A palavra sânscrita abhiniveśaḥ, significa desejo de entrar, mas o comentador Vyāsa explica como se fosse apenas o apego à vida, o que faz com que o indivíduo sinta como se fosse durar eternamente. No entanto, a palavra expressa com mais clareza ainda o desejo de fazer parte, ou seja, de se integrar socialmente com algum grupo. Essa é uma das mais fortes motivações que nos levam ao erro, de fato, pois o desejo de integração nos faz duvidar de nossos próprios valores em favor dos valores compartilhados pelo grupo. Para que vocês possam ter sucesso em sua prática, não devem ter medo de ficarem sós, nem duvidarem de si mesmos por se sentirem diferentes do grupo. É muito importante para sua realização pessoal que vocês escutem atentamente seu coração e que não se envolvam em relacionamentos de qualquer natureza, sob nenhuma hipótese, que estejam em conflito com suas crenças e valores morais. Nem devem também se sujeitar a situações nas quais sua opinião ou sua capacidade de decisão tenham de ser anuladas, a qualquer pretexto. Este é o sentido de abhiniveśaḥ, que se manifesta como insegurança e medo de perder a si mesmo, de simplesmente abrir a mão e deixar ir, de morrer.

O ego também se manifesta como māyā, ilusão. É através de māyā que o ego faz com todos se sintam maiores do que realmente são, da mesma maneira, vendo os outros com diminuição, fazendo-os parecer serem menores.

O ego também se manifesta como asmitā, o conhecimento de que «eu existo», «eu sou». É para proteger o conhecimento de que «eu sou» que o ego se manifesta. Por exemplo, se alguém proferir palavras torpes a você, seu senso de identidade será ferido. Todos os conflitos da vida, sejam no âmbito familiar ou social, são creditados a asmitā.

Todas essas expressões egóicas são inerentes ao princípio do ego. Elas não têm poder quando estamos conectados com a fonte infinita de luz, mas se tornam forças poderosas quando estamos conectados ao exterior, ao mundo com os objetos dos sentidos, com Prakṛti.

Egodectomia

O ego é o obstáculo mais difícil no caminho espiritual. Como nos tornamos conscientes de nosso ego? O exemplo do espelho é bem apropriado: você não pode ver o seu rosto a não ser que fique na frente de um espelho ou outra pessoa lhe diga como está sua aparência. Se alguém lhe diz «você está acabado», imediatamente sua reação será negativa. Se alguém lhe chama de arrogante, isso é o suficiente para que ela se torne sua inimiga. Você reage abruptamente a qualquer pessoa da mesma maneira que não reconhece a si mesmo.

Os yogīs vêm nos alertando desde os tempos imemoriais que o ego é o último obstáculo a ser superado no processo de autorrealização. Portanto, nos estágios finais da senda iniciática o praticante precisa da orientação e inspiração de um Guru. As práticas podem ser executadas em qualquer hora ou lugar. O Guru não é necessário para isso, mas é necessário para nos auxiliar a superar este último obstáculo, o ego. O Guru canaliza o ego e muda sua direção. Este processo é chamado de egodectomia. Infelizmente, não são todos os buscadores que estão preparados para este processo de dissecação do ego. Por conta disso, os Gurus têm poucos discípulos. Eles possuem milhares de iniciados, mas um ou dois discípulos cujo processo de egodectomia pode ser aplicado.

Este é um processo de morte e ressurreição. O antigo ser tem de morrer. A carapaça egóica precisa ser quebrada para que a semente possa germinar. Se a carapaça for muito forte a ponto de tornar-se indestrutível, então a vida continuará a ser a tormenta da mente. O processo de destruição desta carapaça, portanto, chama-se egodectomia.

O gerenciamento do ego através de sanyam

Muitas pessoas me perguntam como reconhecer o ego. Eu sempre digo que a melhor maneira para se reconhecer o ego e suas manifestações é a meditação, mas a melhor maneira de se gerenciar as expressões limitantes do ego é através de sanyam, restrição. Quando sanyam faz parte de nossa vida, nada pode nos perturbar. Na sua falta, poucas palavras bastão para nos perturbar e criar um estado alterado e distorcido na mente. Se alguém lhe insulta, a paz na mente deixa de existir por conta da reação do ego. Se sanyam existe, não importa quem lhe insulta ou como isso acontece, você não reagirá, não irá ficar firulando.

Assim, para administrar as manifestações do ego, primeiro é necessário reconhecê-las através da meditação e então controlá-las através da restrição. O exemplo do elogio e do insulto é perfeito aqui. Usualmente, o insulto irá lhe tirar de seu centro profundamente e o elogio lhe trará um orgulho imediato. Elogio e insulto são como o balanço de um pêndulo, sempre se movimentando de uma extremidade a outra. Vocês enfrentam a situação deste pêndulo a todo instante na vida, na interação com os familiares, os amigos de trabalho e a sociedade em geral e sua atitude é sempre a mesma: você reage e tenta justificar suas atitudes na tentativa de provar que é uma boa pessoa. Seja lá o que você projeta, insulto e elogio sempre lhe afetarão. Esse efeito não é experienciado em manas, buddhi ou citta, mas nos domínios do ego.

Se alguém lhe chama de cachorro, isso lhe insulta. Se o ego estiver à flor da pele, como se diz, você pode até mesmo se imaginar na forma do cachorro. Essa sensação torna-se tóxica, gerando ansiedade. Qual a parte de mahat foi afetada aqui? Não é manas ou buddhi. Se buddhi entra em ação neste momento, você percebe que não é um cachorro, não importando o que digam a seu respeito. Você dirá: «esta pessoa não me conhece; seja lá o que ela fale ou propale a meu respeito, isso não constitui problema meu, mas somente dela». Buddhi irá restaurar o equilíbrio. Claridade de pensamento rapidamente irá lhe libertar desta situação negativa. Contudo, o intelecto e a razão quase nunca entram em ação nestes momentos, isso faz com que o ego reaja, criando a sensação do desconforto, dor, aversão, depressão e destrutibilidade.

O contraforte para o ego é sanyam. O primeiro entendimento acerca de sanyam é permanecer inalterado sob quaisquer circunstâncias. Se vocês conquistarem sanyam dos sentidos, da mente, da fala, interação e comportamento, estarão aptos a confrontar os ataques impiedosos do ego. Contudo, a restrição dos sentidos, da mente e da fala são métodos práticos para se cultivar sanyam, mas seu real significado é a capacidade de se permanecer não afetado. Se vocês permanecerem não afetados em todas as circunstâncias, estarão vivendo em sanyam. Vocês serão mais joviais, contentes e pacíficos.





Continue lendo >>

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Observe sua Mente



Por Fernando Liguori


[Primeira parte da conferência realizada na Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF – para turma de pós-graduação em Ciência das Religiões em 27 de agosto de 2013. Foram omitidos deste texto a sessão de perguntas e respostas e a parte prática no fim da conferência.]


ESTAMOS aqui essa noite para conversarmos sobre a meditação. Quem sabe possamos até passar por alguma experiência meditativa no fim desse encontro. O que preciso é que fiquem a vontade, principalmente relaxados. O relaxamento é um fator sine qua non na prática meditativa. Na realidade, se não existe um estado interior de relaxamento, a meditação não ocorre. Mas embora este fator seja de suma importância no processo meditativo, hoje vamos nos concentrar no processo de percepção e avaliação dos pensamentos na busca pelo cultivo da consciência plena, o que leva, sem dúvida alguma, aos estados meditativos mais avançados e um aprofundamento nos recessos mais ocultos da mente.

Algumas técnicas meditativas envolvem análise enquanto outras se focam na experiência imediata; cada técnica abrange áreas diferentes na consciência. Meditações analíticas são úteis para desenvolver a concentração e a consciência. Mas a compreensão analítica e a preparação mental somente podem nos levar até certo ponto, pois quando a consciência atinge as camadas mais profundas da mente, os pensamentos param por si mesmos. Isso ocorre porque os pensamentos não funcionam sem as palavras e conceitos da mente racional. Quando esse processo de interrupção automática do fluxo mental incessante ocorre, o que resta é uma certeza imediata baseada na realização empírica. Em outras palavras, quando nos despojamos do construto intelectual da mente racional nos conectamos a um tipo de energia sutil que jaz escondida profundamente, a qual experienciamos diretamente.

Alguns meditadores rapidamente conseguem transcender as emoções e os pensamentos, indo direto a experiência meditativa da consciência. Mas para algumas pessoas, é útil primeiro analisar em que estão envolvidas: qual a relação entre a meditação e o meditador? Como essa relação se estabeleceu? Quem está observando e quem está interagindo com a experiência? Essa análise pode nos levar a um nível profundo de investigação, nos tornando mais facilmente abertos a experiência da meditação. Cada questão respondida amplia a visão e reduz as dúvidas e problemas. Assim, uma vez que essa análise tenha sido interrompida, a meditação se torna naturalmente espontânea, imediata, direta.

Um exercício inicial muito bom na prática da meditação analítica é contar quantos pensamentos você teve em uma hora. Em um diário espiritual, onde anotará todas as suas práticas e ações conectadas a elas, anote cada pensamento, categorizando entre positivos, negativos e neutros. A simples observação de quantos pensamentos você teve em uma hora auxilia no ganho de concentração e memória. Capacita-nos a conhecer a natureza da mente e saber como lidar com suas volições. Isso traz paz, elemento essencial para o desenvolvimento espiritual. Swami Niranjan costuma dizer que a paz interior é o solo onde podemos construir as bases sólidas do crescimento interior.

Após algumas semanas selecionando e anotando os pensamentos, escolha um. Mantenha-o em mente, sob análise, o máximo que puder. Pode ser qualquer pensamento, negativo ou positivo. Não deve haver um segundo pensamento. Sua mente deve estar focada em apenas um pensamento. Não julgue, não se envolva, não tente localiza-lo ou ver como ele é. Apenas deixe que ele seja o que é. Quando se cansar do pensamento e tiver exaurido suas possibilidades, escolha outro. Faça isso pelo menos cinco vezes ao dia, esteja onde estiver.

Então, novamente após algum tempo executando essa prática, procure perceber sua relação com o draṣṭṛ, o observador interior, a testemunha que observa e reconhece os pensamentos, conceitos e sentimentos. Quem está observando? Vocês podem dizer que é a consciência, outros vão dizer que é a intuição ou a mente subjetiva ou o «eu» e até mesmo o Ser Interior. Mas como este «eu» está concernido aos pensamentos e como eles operam juntos? Quais as diferenças e os conflitos entre este «eu» e a mente?

Ao invés de analisar isso de forma analítica, tente examinar de forma experimental. Quanto mais observar sua própria experiência, mais cedo poderá descobrir diretamente as respostas as indagações. Mas quando os pensamentos não são avaliados corretamente, você perceberá que está rotulando ou julgando a experiência. Se isso ocorre, as camadas mais profundas da mente automaticamente se tornam inacessíveis e os níveis mais sutis de experiência não são alcançados. Dessa maneira todas as respostas aos questionamentos podem ser superficiais ou inadequadas.

Este «eu» do qual me refiro, é o Ser Interior. Patañjali o chamou de draṣṭṣ, quer dizer, «aquele-que-vê», aquele que percebe a experiência. Como este «eu» e a experiência se conectam? Se a experiência e o draṣṭṛ são a mesma coisa, como o «eu» vê ou participa da experiência? Se são diferentes, qual a diferença entre eles? Uma vez que o «eu» passa por uma específica experiência e é interpretado diretamente – sem palavras ou imagens –, o que resta é o Real ou é algo rotulado, julgado?

Dentro do momento imediato da experiência, não há nada o que possa ser dito, pensado ou rotulado. Não há nada tangível que possa ser traduzido em palavras ou conceitos, pois a experiência está muito além disso. O que pode se descobrir é que até a experiência se dissolve e com ela os problemas que uma vez lhe tiraram do centro. A meditação começa aí! Em outras palavras, com a prática a verborreia interior se dissolve e com ela os pensamentos e emoções tóxicas. O meditador permanece na experiência.

Mas não tentem formular nenhuma ideia específica acerca da experiência. Quando estiverem praticando, não é bom nem pensar que estão meditando ou passando pela experiência. Apenas permitam que a experiência ocorra por si mesma, sem se preocuparem com o que ou como isso está acontecendo. Não é preciso relatar a experiência para si mesmo, pois não existe a «quem» relatar. Se alguma palavra, imagem ou conceito emergir na superfície da mente, isso significa que ainda existe a necessidade de examinar os pensamentos, até que não exista nada a ser dito, interpretado ou explicado.

Todo bom meditador passa anos meditando antes de conseguir livrar sua mente da incessante progressão de pensamentos. Portanto, nós podemos economizar uma quantidade relativamente extensa de tempo na medida em que recebemos instruções precisas para aprender a meditar de forma apropriada. Por exemplo, sem o conhecimento apurado do poder atômico, anos e anos se passaram antes que alguma explosão ocorresse. Mas quando a humanidade conheceu meticulosamente o tamanho do poder da energia atômica, a bomba nuclear foi inventada. Longe de ser um bom exemplo, ele serve para nos mostrar a necessidade do conhecimento de causa para prática correta da meditação.

A formula secreta para se alcançar estados elevados de meditação é não se identificar, não tomar uma posição e não se envolver com nenhuma imagem, pensamento ou até mesmo emoção durante a prática. Você estará no processo de análise, mas sem interagir com a cognição. Quando se aprende a entrar diretamente na meditação, rapidamente o pensamento discursivo ordinário é transcendido e com o auxilio necessário, o meditador pode transmutar o karma negativo de vidas passadas em um espaço curto de tempo. Esse conhecimento secreto acerca da meditação se torna uma fonte autossustentável de inspiração. Nós nos tornamos centrados no eixo da consciência pura, sem sujeito, sem objeto ou algo entre eles. Não há nada que nos tire do equilíbrio.

A meditação transcende o tempo, os sentidos, o complexo sujeito-objeto. Transcendo esses obstáculos, a meditação nos leva além dos níveis racional e intelectual da mente, nos projetando a luz da consciência. É como olhar para uma tela: de um lado da consciência se encontra a existência – pensamentos, emoções, negatividades e todos os padrões que nos enjaulam dia após dia; do outro lado se encontra um nível muito refinado de energia, um profundo estado meditativo que nos liberta do cárcere da mente, seus vícios e necessidades triviais.

Continue lendo >>

  ©Template by Dicas Blogger.

TOPO