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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Yoga, palha e bom-mocismo



Upanishads: sem papas na língua


Digam-me: é só impressão minha ou realmente há no yoga uma tendência muito grande para silenciar diante da ignorância, de heresias e de absurdos evidentes e, ao mesmo tempo, criticar e repudiar veementemente todos aqueles que decidem criticar e repudiar a ignorância, a heresia e o absurdo? É proibido divergir e questionar? Toda crítica precisa ser vista como um ataque pessoal?

Estas perguntas devem-se ao seguinte. 

Como todos sabem, hoje em dia há muita diversidade no yoga -- dos yogins habituados ao samadhi até os mallakhambistas competidores. Há pessoas atentas à tradição e há pessoas que praticam o yoga por esporte. Ainda que seja impossível e inútil estabelecer o que é «melhor» e o que é «pior» -- visto que práticas e conteúdos diferentes se prestam a pessoas diferentes --, é possível discutir essas diferenças, aproximá-las e compará-las. Não há nada mais normal do que ter preferências e expressá-las -- dentro e fora do yoga. Para o estudante sério, ter preferências e expressá-las é uma forma de evoluir. Nenhum estudante sério expressaria suas preferências pelo desejo simples de encontrar eco; ele as expressa para trazê-las aos debates e expô-las às críticas (preferencialmente, as construtivas), para mantê-las vivas e em constante evolução.

Há no entanto uma grande dose de bom-mocismo no yoga, um excesso de respeito e polidez ao lidar com diferenças -- seja de conteúdos, de opiniões, de preferências. Já ouvi algumas pessoas se justificarem dizendo que dois sistemas como, por exemplo, Bikram e Sivananda simplesmente não podem ser comparados porque não tratam da mesma coisa, isto é, são diametralmente opostos. Mas os fatos são outros: estes dois sistemas têm «yoga» no nome, seus respectivos criadores também falavam constantemente que o que ensinam é «yoga». Logo, os dois sistemas e os dois mestres podem ser colocados no mesmo balaio e estudados à luz dos mesmos critérios -- por exemplo, a definição clássica, dada por Patañjali. Se não podem, alguém por favor me diga por que.

Em busca de explicações para a habitual indisposição para discutir e comparar, encontro três: preguiça, medo de discutir ou apego patológico às próprias idéias. Se a discussão e o combate intelectual não são compatíveis com o espírito do yoga, essas três coisas são ainda menos. 

No campo das idéias, dentro ou fora do yoga, eu sempre achei que a atitude ideal era a promiscuidade absoluta: eu abandono minhas idéias tão logo encontre outras melhores. Idéias devem ser tratadas à base de pão velho e porrada. Idéias devem ser expostas ao ridículo e ao debate, devem ser achincalhadas e maltratadas, devem ser deixadas ao relento. Se sobreviverem a tudo isso é porque realmente vale a pena mantê-las e pronunciar-se em defesa delas. 

Quando deixamos o plano individual e passamos ao plano coletivo/social do yoga e quando deixamos a solidão da prática individual e passamos aos métodos e às práticas em grupo é natural que surjam divergências e conflitos. No yoga, tudo aquilo que pode ser compartilhado também pode ser discutido, criticado, estudado e aperfeiçoado e todas estas ações são naturalmente permeadas por divergências e conflitos. Estes fatos só se tornam ruins se são evitados a qualquer custo, como se discussões não fizessem parte da natureza humana e fossem o antônimo de civilidade, como se um yogin fosse um semideus numa torre de marfim.

Quem quer que tenha estudado a biografia dos mestres de diversas tradições espirituais -- dentro e fora da Índia -- sabe que os atributos que definem o ser humano não se dissolvem com a evolução espiritual. É claro que certos desvios de caráter se dissolvem, assim como o ímpeto para divergir e expressar opiniões -- Albert Camus dizia que a maioria de nós é um incendiário na juventude e um bombeiro na maturidade. Contudo, por mais iluminada que seja uma pessoa, ela continuará tendo fome, sede, contas para pagar e roupas sujas para lavar. E precisará de água e comida, terá que ir ao banco e precisará de sabão. Em outras palavras, o sujeito iluminado continuará vivendo em sociedade e lidando com pessoas não-iluminadas. Os conflitos continuarão sendo inevitáveis. Por que negá-los? Que mal há em chamar A de A, B de B e dar uns toques em quem insiste em chamar A de B e B de A?

Digo isso tudo porque já houve quem questionasse certos temas que tenho abordado neste blog, assim como o tom crítico que uso para abordá-los. A relação entre estes escritos e o yoga não é direta. Yoga é prática silenciosa, como a maioria já sabe. Eu tendo a escrever demais e a falar demais. Mas este sou eu e seria infinitamente pior se eu me pusesse a forçar um «tipo» com base naquilo que a maioria das pessoas crêem que um yogin «tem que» ser. Não há nada pior no yoga do que seguir estereótipos ou seguir a opinião alheia apenas pelo desejo pouco sincero de agradar e de manter uma aparência que corresponda àquilo que as pessoas imaginam ser um yogin. Ao mesmo tempo, não me parece que a inexistência de divergência e conflitos resulte de uma harmonia genuína entre as pessoas. Existe uma enorme diferença entre polidez e ahimsa. Em muitos casos, quem critica os críticos mostra-se mais beligerante que os próprios críticos. 

Claro que é possível que o silêncio diante dos turbilhões de idéias e possibilidades decorra de uma noção de que há coisas mais importantes para fazer. O indivíduo pode se considerar sinceramente superior às miudezas que geram discussões como as deste texto, sem que haja nessa atitude qualquer traço de egocentrismo ou arrogância; ele faz assim simplesmente porque sabe que o silêncio é uma boa resposta e sabe qual é seu lugar no mundo. Supondo que seja este o caso, seria uma enorme falta de compaixão para com pessoas que, como eu, dependem dos sinais e das orientações de pessoas iluminadas, dispostas a explicar, por exemplo, que todos os parágrafos anteriores são -- como dizia Sto. Tomás de Aquino -- palha, somente palha.

Om Shanti.

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Não existe melhor ou pior


Sarvangasana


Cristalizou-se ao longo das últimas décadas a idéia de que o bem é relativo e de que não existe verdade. No yoga, a fixação desta crença fê-la criar raízes e ramos e produzir frutos, redundando num sem-número de métodos maravilhosos. Embora cada um deles ostente uma bandeira diferente, com cores diferentes e formatos diferentes, só há um lema: «não existe melhor ou pior».

Um dos pilares desta crença é a compreensão literal do panteísmo hinduísta. Se «tudo é Um», realmente não faz diferença seguir esta ou aquela direção. Já somos o que deveríamos ser. 

Decerto nada acontece fora de Deus e nada existe em «outro plano»; mesmo as mais tresloucadas idéias fazem parte do «Um». Assim, a própria noção de ilusão é estranha diante da idéia de que «tudo é Um». Porém, quem diz «não existe melhor ou pior» ou «não existe certo ou errado» não está se referindo a um plano em que «tudo é Um», tampouco está vivendo nesse plano.

A existência neste mundo implica diferenciações materiais e conceituais. Estar vivo é diferenciar-se. Tanto melhor é a vida quanto mais clara é essa diferenciação -- isto é, quando maçãs são vistas como maçãs, canecas como canecas, automóveis como automóveis, o Joãozinho como Joãozinho e a Mariazinha como Mariazinha. Logo, neste mundo existe melhor e pior, certo e errado porque esta diferenciação é a própria substância deste mundo.

No plano da eternidade, em que «tudo é Um», a própria noção de moral não tem o menor sentido. Neste mundo -- que é precisamente onde uma pessoa vive, trabalha, come e dorme, paga contas, produz idéias e as expressa -- a moral não apenas é possível como também é necessária -- daí todas as distinções entre certo e errado, melhor e pior.

Portanto, de duas uma: ou (i) o indivíduo assume integralmente que «tudo é Um» e silencia sobre o que quer que seja ou (ii) assume as limitações e necessidades do plano em que vive e pronuncia-se de acordo com elas. E é óbvio que as postulações de uma pessoa sobre a vida de um modo geral só fazem sentido se ela se dispõe a submeter as especificidades da própria vida a essas postulações.

***

«Tudo está fluindo da melhor forma»

Estas colocações são pertinentes para analisarmos o diálogo a seguir.

Deparei-me recentemente com um post num blog sobre «dog yoga» (modalidade em que posturas inspiradas no yoga são realizadas junto com seu cachorro). Qualquer pessoa com mais de dois neurônios sabe que «dog yoga» não é yoga. Se você tem alguma dúvida disso ou se esta frase soa rude ou antipática, talvez seja melhor você fechar esta página e não voltar a ela. Se não tem, prossiga.

Eis o diálogo.

Meu comentário, que deu início à troca:

Obviamente você não deve satisfações a mim e a quem quer que seja sobre as razões que o levam a publicar certas informações em seu site, tampouco tenho como objetivo inquiri-lo sobre isso. A casa é sua, não minha.

Seja como for, devo dizer que fico especialmente curioso sobre suas intenções neste post. Chama-me a atenção o contraste entre o fato de que não se trata, em nenhuma hipótese, de algo que se possa chamar de yoga (o que pode ser verificado e validado por diversas formas, das mais intuitivas às mais «científicas», incluindo as mais tradicionais e as mais modernas) e o fato mesmo da reprodução despretensiosa da informação, isto é, absolutamente desprovida de qualquer crítica.

Talvez tenha sido o caso de transmitir informações relacionadas ao yoga independentemente do teor e da qualidade, como mera curiosidade sobre o lado exótico do yoga e do que dele decorre. Contudo, não vejo por que isto deporia a favor do post, muito menos a favor do yoga. Onde quer que haja objetos diferentes tratados com o mesmo nome, cabe a nós profissionais manter a clareza das informações e dos conteúdos. E, claro, esta responsabilidade aumenta quando nos dispomos a escrever publicamente sobre o assunto.

Se achar adequado falar um pouco disso (isto é, falar do que não foi dito), o acompanharei com satisfação.

A réplica:

Querido Christian,

Esse blog tem a função de divulgar a prática de yoga e massagem ayurvédica bem como assuntos relacionados ao tema. Quando me refiro a assuntos relacionados ao tema abro o leque e divulgo tudo que eu achar que será relevante de alguma forma, mesmo que cause polêmica.

Entendo esse caminho milenar não como uma prática rígida mas com muita suavidade. Por isso faço e sigo o caminho da yoga e ayurveda com muita flexibilidade e de forma que se adapte ao meu dia dia numa cidade como São Paulo e sempre ouvindo minha intuição.

Não existe certo ou errado, melhor ou pior. O que existe está ai e está fluindo da melhor forma como deve fluir. 

Espero que continue acompanhando nosso trabalho.

Publiquei a seguinte tréplica, que foi apagada pelo dono do blog horas depois:

Agradeço a publicação de meu comentário e sua resposta.

Se você não vê diferenças entre certo e errado, posso supor que você não as vê nem em sua própria vida e em seu próprio trabalho, certo? Por que, então, eu deveria continuar acompanhando seu trabalho, como você sugere no final de sua resposta?

Por favor, não me entenda mal. A pergunta pode soar retórica e antipática, mas na verdade é bem objetiva.

Por muito tempo eu acreditei que não existe certo ou errado, melhor ou pior. No plano a partir do qual os mestres encaram a realidade, realmente tais adjetivos não fazem muito sentido. Mas no plano em que nós nos encontramos -- em que dialogamos e trabalhamos para perpetuar o yoga --, adotar tal afirmação («não há certo ou errado») como regra mais confunde do que esclarece.

Por exemplo, se não existe certo e errado, qualquer coisa pode receber o nome de yoga e ser divulgada como tal. Comer parafusos, talvez. Ou a auto-mutilação. Se não há certo ou errado, só o mero acaso explicaria nossa permanência num caminho como o yoga e, portanto, bastaria fazer qualquer outra coisa que recebesse este nome para ser um yogin e para realizar-se como tal. O que quero dizer com estes exemplos extremos é que uma análise objetiva de certas afirmações pode mostrar a extensão de sua validade como instrumento para lidar com a realidade.

Então, a flexibilidade, a adaptação e a fluidez -- como qualquer atributo que se use para desenvolver qualquer tipo de atividade, disciplina ou auto-estudo -- têm limites. É precisamente por este motivo que o yoga mudou tão pouco na Índia, sobretudo entre aqueles que o criaram, e mudou tanto no Ocidente.

Além de apagar minha tréplica, o dono do blog aparentemente deu a discussão por encerrada, porquanto não houve mais nenhum sinal. Insisti, enviando um outro comentário, porém já prevendo o resultado.

1) Se sou «querido», por que apagou meu comentário?
2) Se não existe certo ou errado, por que apagou meu comentário?
3) Se não existe melhor ou pior, por que apagou meu comentário? 
4) Se tudo está fluindo da melhor forma, por que apagou meu comentário?

Eu entendo que possa ter recusado minha tréplica. O que não entendo é a ausência de coerência entre palavras e ações.

As perguntas não foram retóricas, mesmo eu sabendo que elas trariam o fim prematuro do diálogo. Algumas horas depois todos os comentários foram apagados.

***

Satya e bom-mocismo

A maior parte das pessoas que estuda e ensina yoga hoje em dia considerará que fui agressivo e que não havia nenhuma necessidade de incomodar uma pessoa com questionamentos a respeito do que quer que seja.

Eu sinceramente duvido disso, por vários motivos.

Primeiro, pelos motivos expostos em meu primeiro comentário ao autor do post sobre «dog yoga»:

Onde quer que haja objetos diferentes tratados com o mesmo nome, cabe a nós profissionais manter a clareza das informações e dos conteúdos. E, claro, esta responsabilidade aumenta quando nos dispomos a escrever publicamente sobre o assunto.

É evidente que eu, como professor, tenho a obrigação não apenas de transmitir o que é certo mas também de questionar uma pessoa quando acho que ela não está transmitindo o que é certo. Não digo isso porque quero impor a ela a minha visão, mas porque não descarto a possibilidade de que eu mesmo esteja errado. Portanto, uso o questionamento da seguinte forma: se eu estou certo e a outra pessoa errada, ela pode passar a fazer o certo; se eu estou errado e ela certa, eu é que posso passar a fazer o certo; nos dois casos as duas pessoas podem ganhar, nos dois casos o yoga ganhará.

Logo, quando há divergências o questionamento não é apenas interessante, ele é necessário também, sobretudo quando tratamos de uma tradição que tem autores e história e quando participamos de um círculo de pessoas teoricamente dispostas a propagar essa tradição.

Segundo, uma afirmação não-ficcional só merece ser levada em conta se ela inclui o próprio autor. Por exemplo, dizer «não existe certo ou errado» ou «não existe melhor ou pior» dispensa automaticamente o ouvinte de dar ouvidos ao que quer que esse autor venha a dizer depois disso. Se todas as idéias e palavras têm o mesmo valor, por que raios eu deveria ouvir aquele sujeito em vez de ouvir uma conversa de botequim ou as entrevistas de um programa de auditório?

Este caso é um exemplo de paralaxe cognitiva, definida pelo filósofo Olavo de Carvalho como «o deslocamento entre o eixo da construção conceitual e o eixo da experiência existencial». Em palavras mais simples: aquilo que o sujeito diz não tem a menor relação com aquilo que ele efetivamente vive -- e, se não tem, não pode ser levado a sério a não ser como ficção.

Uma resposta a esta crítica é «você não é obrigado a me levar a sério», mas mais uma vez é evidente o deslocamento entre a vida que a pessoa vive e aquilo que ela diz, pois é claro que ela gostaria de ser levada a sério, respeitada e aprovada, sobretudo por alunos e clientes. 

Ademais, se isto agrada aos viciados em yamas, o fenômeno da paralaxe cognitiva nada mais é do que um desrespeito a satya. Hoje em dia há poucas coisas mais comuns do que faltar com a verdade em nome de um bom-mocismo que as pessoas insistem em chamar de ahimsa.

***

Realmente não me importo de ter comentários apagados ou de não encontrar nenhum espaço ou disposição para discutir temas que considero pertinentes. Não escrevi este texto porque estas coisas me aborreceram -- de fato não me aborreceram e não me aborrecem. Realmente não se trata de discutir pessoas (por este motivo é que não indiquei nomes e endereços do site e do post), mas de discutir idéias e atitudes e de analisar como isto influencia o yoga e a compreensão que se tem desta disciplina.

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Satya: o compromisso com a verdade


Oui, Monsieur Duchamp, isto é um mictório, não uma obra de arte.


Mentir dá trabalho. Quem mente é obrigado a gerenciar duas «realidades», uma para si e outra para as outras pessoas (a não ser que o sujeito seja biruta, a realidade de fato é aquela que ele guardará para si). Comparado com alguém que não mente, o mentiroso sempre terá mais trabalho e gastará mais tempo e energia. Mentir é uma espécie de malabarismo. 

Satya é o yama que mostra a importância de não criar realidades. O yogin que respeita este yama reconhece a realidade única e vive nela. Trata-se, portanto, de um exercício constante de sinceridade -- consigo, com os outros, com o universo ---, de permitir que a visão se purifique e se livre de julgamentos e de avaliações. Estas coisas pertencem ao território da mente e o yogin sabiamente permite que elas aconteçam. Satya não o leva ao esforço de neutralizar os julgamentos e avaliações, satya apenas leva o yogin a reconhecer tais coisas como produtos da mente e, portanto, como uma tentativa da mente manipular e recriar a realidade à sua própria vontade.

Satya, portanto, pode ser compreendido também como o esforço de não misturar objetos de naturezas diferentes antes de reconhecê-los como tais.Um exemplo pode tornar esta idéia mais clara.

***

Suponhamos que um colega de trabalho, com quem você tem boas relações, o destrate sem nenhum motivo aparente. A mente do indivíduo inconsciente de si reagirá produzindo explicações para o fato: 

1) Seu colega na verdade não gosta de você. Portanto, ele é falso e desde o início estava enganando você, provavelmente porque quer prejudicá-lo.

2) Seu colega acordou de mau humor, por isso ele o maltratou. Logo vai passar.

3) Seu colega está passando por um período difícil na vida e maltratar as pessoas é uma reação natural a isso e uma forma inconsciente de pedir ajuda.

A mente pode criar outras explicações e cada uma delas implicará desdobramentos. Note, por exemplo, que cada uma das três explicações sugeridas indicam três caminhos diferentes. Decerto a primeira explicação levaria você a iniciar um conflito bastante sério com seu colega. A segunda poderia levá-lo a uma atitude passiva, à espera de que o humor de seu colega melhore. A terceira poderia levá-lo a oferecer-lhe ajuda. Qual das três mais se aproxima da realidade? A resposta é: nenhuma. Mesmo que uma delas corresponda em algum grau ao que de fato aconteceu com seu colega, elas foram produzidas na sua mente.

Sem dúvida, a aproximação entre fato e pensamento pode modificar a realidade, mas é fácil perceber os riscos a que nos expomos quando agimos com base em pensamentos que não correspondem à realidade inicial -- aquela que gerou os pensamentos que geraram nossas ações. Pode-se imaginar que esses riscos não existem quando fato e pensamento coincidem (em outras palavras, quando conseguimos perceber a realidade adequadamente); no entanto, permanecer em satya leva o indivíduo a dispensar até mesmo os «pensamentos certos» ou, no máximo, a reconhecê-los como são, isto é, como pensamentos.

***

Perceber a realidade significa reconhecer o movimento das informações. Luz, calor, sons, fatos -- tais informações são recebidas pelos sentidos. Notar essas coisas é o mesmo que notar as informações que essas coisas produzem e, portanto, o movimento dessas informações em nossa direção.

Se vejo um carro azul, meus olhos recebem a imagem e minha mente a registra. Fechar os olhos significa interromper o fluxo dessa informação. Ver mentalmente o carro azul significa criar um movimento que parte de mim. Ainda que ele não ultrapasse os limites de meu corpo e de minha mente, ele já foi «emitido»: se posso vê-lo, mesmo que apenas mentalmente, significa que ele já está «fora de mim». Satya significa também reconhecer esses dois movimentos e não confundi-los em nenhum momento.

O indivíduo acostumado a viver na ilusão não apenas inventa realidades e se esforça para que elas substituam a realidade única. Ele também não reconhece a realidade única quando a vê. Confundir aqueles dois movimentos -- a realidade que vem até você através dos sentidos e as imagens produzidas na mente como eco dessa realidade -- significa perder todo o senso da realidade. Pior do que viver na ilusão é perder a capacidade de perceber a realidade, por mais óbvia e impactante que ela seja.

***

Ah, sim, o yoga. Suponhamos que você vá até a escola onde toma aulas de yoga, estende seu tapete e posiciona-se para o início da prática. Então seu professor altera completamente o andamento habitual da aula. Ele ensina passos de dança ou fica conversando sobre os maravilhosos efeitos terapêuticos dos asanas ou, ainda, permanece em silêncio olhando para você com expressão absolutamente neutra. 

É natural que sua mente reaja. «Que raios é isso? Aula de dança agora?». Ou: «Ok, Hipócrates, asanas são uma panacéia. Que tal praticá-los?». Ou ainda: «Se ele continuar me olhando mais um segundo eu vou cair na risada. Não, eu não posso rir... eu não posso rir... Quando é que a aula vai começar?».

Uma boa forma de exercitar satya em situações assim é colocar seus pensamentos no fim da fila das coisas que participam da realidade. Observe como são suas ações quando elas não podem contar com os pensamentos. Perceba tudo o que acontece -- dentro e fora de você -- até que todas aquelas frases surjam na mente. A verdade se revela quando você se torna capaz de permanecer em silêncio, apenas observando tudo o que acontece.

***

Uma linda garota da vila ficou grávida. Seus pais, encolerizados, exigiram saber quem era o pai. Inicialmente resistente a confessar, a ansiosa e embaraçada menina finalmente acusou Hakuin, o mestre Zen o qual todos da vila reverenciavam profundamente por viver uma vida digna. Quando os insultados pais confrontaram Hakuin com a acusação de sua filha, ele simplesmente disse: «É mesmo?»

Quando a criança nasceu, os pais a levaram para Hakuin, o qual agora era visto como um pária por todos da região. Eles exigiram que ele tomasse conta da criança, uma vez que essa era sua responsabilidade. «É mesmo?», Hakuin disse calmamente enquanto aceitava a criança. 

Por muitos meses ele cuidou carinhosamente da criança até o dia em que a menina não agüentou mais sustentar a mentira e confessou que o pai verdadeiro era um jovem da vila que ela estava tentando proteger. Os pais imediatamente foram a Hakuin, constrangidos, para ver se ele poderia devolver a guarda do bebê. Com profusas desculpas eles explicaram o que tinha acontecido. «É mesmo?», disse Hakuin enquanto devolvia a criança.

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