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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O Bindu Branco & o Bindu Vermelho



Fernando Liguori
(Kulānanda Saraswatī)

No corpo masculino, o shukla (bindu branco) emana da região da lua na forma de amṛta, o néctar da vida, gotejando do bindu-visarga para baixo na região do viśuddhi-cakra. Devido às propensões naturais, do viśuddhi ele cai na região do agni-maṇḍala, o maṇipūra-cakra onde é consumido pelo sol. Posteriormente, ele cai nos centros mais inferiores onde é transformado em sêmen e escapa do corpo. Embora o bindu caia dos centros superiores aos inferiores no processo natural da vida, ele pode ser revertido e impulsionado novamente para os centros superiores através das práticas de kuṇḍalinī-yoga, reintegrando-se com sua fonte, o bindu-visarga. A natureza do sistema feminino é diferente a este respeito. Ele está relacionado com o rajas (bindu vermelho), que é estabelecido nos centros inferiores e está associado com o sistema reprodutivo e o ciclo menstrual. O rajas é unido com o sol na região do maṇipūra-cakra, o que revela que a tendência natural da mulher é criar e suportar a vida. A mulher não precisa transcender o mundo natural a fim de adquirir experiências espirituais. Sua receptividade interna cresce através do processo natural da vida, especialmente nos períodos de reprodução, o que resulta na experiência direta da Realidade Última. Por conta disso, no passado, as mulheres geralmente não se envolviam com práticas espirituais a fim de despertar sua natureza divina e seus poderes relacionados. Contudo, a mulher que canaliza o rajas aos centros superiores experimenta um despertar mais poderoso do que o homem, pois o rajas é muito mais forte que o shukla, especialmente quando está concentrado nos centros inferiores. É por conta disso que a contraparte feminina, a dūtī ou sacerdotisa, sempre foi essencial na tradição tântrica.

De acordo com o Tantra, o bindu existe em duas formas, o branco e o vermelho. O bindu branco representa o princípio-consciência, Puruṣa ou Śiva. O bindu vermelho representa o princípio-energia, Prakṛti ou Śakti. Dentro de cada indivíduo o bindu branco se origina no assento da lua, o bindu-visarga-cakra, e o bindu vermelho no assento do sol, o maṇipūra-cakra. Embora ambos os bindus estejam presentes em cada indivíduo, o branco é predominante no corpo masculino e o vermelho no corpo feminino.

Quando o bindu branco cai, ele é transformado em sêmen (shukla) ou fluído masculino reprodutivo. Quando o bindu vermelho cai, ele se torna fluído menstrual (rajas). Através de práticas específicas de kuṇḍalinī-yoga, o sêmen produzido pelo corpo masculino pode ser transmutado novamente em consciência. Similarmente, o fluído mestrual produzido pelo corpo feminino pode ser transmutado novamente em energia. Este processo de transformação somente é possível porque em um nível sutil estas duas energias existem na forma de sementes ou bindus. No processo yogī, é extremamente importante reter estes dois bindus pelo processo de sublimação; somente desta maneira o progressivo despertar das forças espirituais elevadas não será obstruído.

Rajas é descrito nas escrituras como um vermelho radiante, uma referência clara ao fluído menstrual. Contudo, o óvulo é a manifestação física do bindu no corpo feminino. O folículo ovariano, que nutre e envolve o óvulo, é responsável pelo ciclo menstrual. O fluxo menstrual e as secreções vaginais são manifestações dependentes do óvulo porque o folículo ovariano secreta estrogênio e progesterona, hormônios que induzem a proliferação do revestimento uterino e sua expulsão durante a menstruação.

Portanto, o bindu vermelho ou rajas está relacionado com o ciclo reprodutor feminino em um nível físico. Em um nível prânico, contudo, rajas corresponde a prāṇa-śakti, a força vital representada pelo sol e pela cor vermelha. O maṇipūra-cakra, atrás do umbigo, é o centro ou plexo solar, conforme o kuṇḍalinī-yoga. Ele é o grande armazém de prāṇa e o centro do fogo (agni-maṇḍala), simbolizado por um triângulo vermelho invertido. O rajas, neste nível prânico, situa-se nessa região.

Shukla, o bindu branco, é representado em um nível físico como o espermatozóide no organismo masculino, cujo veículo é o fluído seminal. O espermatozóide se torna o bindu quando o sêmen é sublimado. No processo de sublimação, nem o fluído ou a energia escapam do corpo. Contudo, não é a retenção ou a emissão do fluído seminal que importa aqui, mas a conservação da energia que é utilizada em sua produção.

O assento do shukla é a lua, que se relaciona com a mente ou citta-śakti, a força mental ou consciente. No kuṇḍalinī-yoga a lua é representada em dois níveis de evolução: no nível instintivo ela é representada pelo swādhisṭhāna-cakra e no nível mental mais elevado pelo bindu-visarga-cakra. Na simbologia dos cakras, a lua é associada a estes dois cakras. Portanto, o bindu branco está associado à produção do sêmen no nível do swādhisṭhāna e a secreção do amṛta no bindu-visarga. Assim, o bindu branco se relaciona com a lua, que corresponde tanto ao swādhisṭhāna quanto ao bindu-visarga, dependendo do contexto.

Como rajas ou prāṇa-śakti está associada ao sol na região do maṇipūra e se manifesta como força procriativa na região do útero ou swādhisṭhāna, ela se sustenta por apāna, a força prânica que usualmente desce da região do umbigo até o períneo. Os diferentes mudrās, bandhas e kriyās do kuṇḍalinī-yoga revertem o fluxo descendente de rajas, de maneira que ele possa novamente voltar a região de agni-maṇḍala ou maṇipūra-cakra.

Neste processo, o grande armazém de prāṇa no maṇipūra é gradativamente ativado e desperto pela força de rajas. Posteriormente, pelas mesmas técnicas citadas acima, o despertar do prāṇa ou rajas é dirigido para dentro da suṣumṇā-nāḍī, de onde ascende com grande força e se integra com o bindu. Esse processo pode ser comparado ao despertar da kuṇḍalinī no nível de maṇipūra. Portanto, é dito que com o despertar da kuṇḍalinī a partir do mūlādhāra, prāṇa-śakti ascende como uma garoa fina, mas quando a kuṇḍalinī desperta a partir do maṇipūra, ela ascende como uma torrente de energia, um verdadeiro vulcão em erupção.

Integrando rajas com o sol na região do maṇipūra, o despertar da kuṇḍalinī se torna estável e continuamente progressivo. O despertar da kuṇḍalinī a partir do mūlādhāra nunca é permanente. Ela sobe e desce devido à ação gravitacional das identificações e associações materiais. Não existe força o suficiente para atravessar as barreiras kármicas e instintivas dos centros mais inferiores. Contudo, quando a kuṇḍalinī é desperta a partir do maṇipūra-cakra pela integração do rajas com o sol, não existe queda posterior e o rajas sobe desimpedido através da suṣumṇā-nāḍī para se integrar com bindu.

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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Introdução ao Estudo de Kuṇḍalinī Yoga



Por Purneś 

Consideramos a prática do kuṇḍalinī-yoga como uma extensão do trabalho do haṭha-yoga. As técnicas básicas para realizar as práticas do kuṇḍalinī-yoga estão intimamente relacionadas com as técnicas do haṭha-yoga. Na verdade, elas são uma maneira diferente ou mais refinada de se praticar aquilo que aprendemos no haṭha-yoga. Portanto, consideramos imprescindível a prática de haṭha-yoga antes do kuṇḍalinī-yoga como uma preparação. No curso que ministramos de kuṇḍalinī-yoga, somente aceitamos praticantes com dois ou mais anos de prática de haṭha ou professores dessa ciência.

Na Yoga Cudamani Upaniṣad (v. 109), está escrito:

आसनेन रुजन् हन्ति प्राणायानेम पातकन्
विकारन् मानसन् योगी प्रत्याहारेन मुन्चति

As doenças são destruídas pelos āsanas e os pecados pelo prāṇāyāma. Através de pratyāhāra o yogī remove as impurezas da mente.

Nesta upaniṣad, um estudo sobre kuṇḍalinī-yoga, este verso inicia a descrição do ṣadhāṅga-yoga, i.e o Yoga se Seis Membros, enfatizando o valor de cada aspecto da prática como pré-requisito ao sādhanā do kuṇḍalinī-yoga.

Os āsanas removem as doenças porque eles reequilibram e regulam os prāṇas, nāḍīs e cakras. Muitas doenças surgem devido ao desequilíbrio na infra-estrutura prânica que supre o sistema nervoso, glandular e todos os outros sistemas corporais e seus órgãos correlatos. Cada āsana está designado a remover determinados bloqueios prânicos das nāḍīs, permitindo que a energia vital perpasse todo organismo de forma regular e contínua. Os āsanas também estimulam e regulam os cakras, reequilibrando a energia dos prāṇas e nāḍīs nestas áreas. Portanto, a prática regular de āsanas harmoniza e regula os campos de energia no corpo, cujo resultado, segundo esta upaniṣad, é a remoção de todas as doenças.

Quando prāṇāyama é praticado como suplemento ao kuṇḍalinī-yoga, ele torna-se uma ferramenta muito poderosa no despertar da kuṇḍalinī. Na verdade, a kuṇḍalinī pode ser desperta apenas pela prática do prāṇāyāma. Mas este verso associa o prāṇāyāma a remoção dos pecados: prāṇāyāma se torna o fogo para o combustível do pecado (verso 108).1 O maior obstáculo no despertar espiritual são os bloqueios gerados pelo karma e os saṃskāras armazenados no mais profundo substrato da consciência. O que estes versos (108 e 109) querem dizer é que, prāṇāyāma, executado como parte do kuṇḍalinī-yoga, se torna o fogo para o combustível dos pecados, queimando-os, junto com seus karmas. A retenção respiratória (kumbhaka), é um requisito importante para o despertar da kuṇḍalinī, pois ela aumenta a quantidade de prāṇa no organismo e intensifica a concentração. Neste caminho, a kuṇḍalinī-śakti é rapidamente desperta de sua morada no mūlādhāra-cakra e ascende através da suṣumṇā-nāḍī. Portanto, quando prāṇāyāma é praticado para despertar a kuṇḍalinī, ele leva ao estado meditativo e samādhi, onde todos os karmas são finalmente queimados.

Os karmas são cordas invisíveis que aprisionam nossas almas ao mundo. Nunca estaremos livres das tendências ordinárias mundanas enquanto os karmas permanecem ativos em nosso interior. Prāṇāyāma é um método de desativar ou queimar os karmas. Portanto, ele sempre foi considerado pelos yogīs como a grande ponte que cruza o oceano do saṃsāra.

As impurezas da mente (vikāra) referidas neste verso são inerentes a todos os pensamentos, memórias, idéias, desejos e aversões. Elas continuam surgindo e se associando aos objetos e relacionamentos mundanos, ao invés de nos direcionarem ao ātman. Vikāra, aqui, também pode ser compreendido como impressões mentais dos karmas ou impressões subliminares. Essas impurezas mentais não podem ser removidas até que possam ser reconhecidas pelo que elas são. Isso requer um aprofundamento meditativo, pois vikāra é um processo sutil e prolífico. Ele cria e recria a si mesmo na mente na medida em que se associa com cada experiência na vida.

Não é possível reconhecer e identificar essas impurezas da mente enquanto os sentidos estão externalizados, criando mais associações e impressões. Portanto, é imperativo impedir esse processo retraindo os sentidos e a mente (pratyāhāra) dos objetos externos e internalizando a consciência nas dimensões mais profundas da mente. Assim, a energia mental que normalmente é dissipada pela mente e os sentidos no mundo exterior pode ser redirecionada para o interior na medida em que observamos conscientemente os pensamentos e impressões surgindo dentro da mente, dos rincões mais profundos e inacessíveis. Dessa maneira, a consciência é treinada a funcionar atentivamente dentro da mente, como se estivesse do lado de fora.

A consciência deve ser treinada para perceber o campo mental e todos os construtos pensamento que surgem nele. Na medida em que a mente aprende a reconhecer as diferentes impressões (vikāra), sem se associar ou se identificar com elas, o processo de limpeza mental se inicia. Este é um processo lento e metódico conhecido como citta-śuddhi (purificação mental). Gradativamente, a consciência observa e descarta cada construto pensamento e impressões que surgem até que a mente esteja vazia e quieta. Essa é a maneira pela qual os yogīs removem as impurezas mentais pela prática de pratyāhāra, o terceiro membro do ṣadhāṅga-yoga.2

A razão de citar o verso acima e tentar trazer alguma luz com nosso comentário é enfatizar a base sólida pela qual nós precisamos nos firmar antes de começar as práticas de kuṇḍalinī-yoga. No curso de nossas lições tentaremos expor muitos detalhes para uma prática segura.


Anotações

1. प्राणायामो भवेदेवन् पातकेन्धनपावकः

2. Os outros três membros são: dhāraṇā, dhyāna e samādhi.

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Kuṇḍalinī Yoga Terapia & os Segredos Espirituais da Āyurveda



Por Purneś

Parte 1

No trabalho que desenvolvemos, eu e minha esposa Māḷikā, recebemos muitas pessoas precisando se curar. Na verdade, nosso trabalho é de cura e foram poucas as pessoas que nos procuraram com outros objetivos. Quando recebemos essas pessoas, primeiro tentamos encontrar a raiz dos seus desequilíbrios nos doṣas (biotipos constituintes) e traçamos um sādhanā (prática espiritual) especial para sanar estes desequilíbrios, dependendo da natureza de cada indivíduo. Este sādhanā ou dinacharya (conduta diária) inclui práticas yogīs como āsanas, prāṇāyāmas, mudrās e bandhas. Para aqueles que são ritualisticamente inclinados, orientamos um upāsana que envolve a adoração de deidades tântricas e védicas, assim como a execução de mantras e meditações. Portanto, nosso trabalho alia uma terapia com o kuṇḍalinī-yoga e os aspectos espirituais da Āyurveda.

Mas a cura através deste processo espiritual requer muito cuidado. Por exemplo, prāṇāyāma é um exercício muito forte para a grande maioria das pessoas que não estão acostumadas com a prática do Yoga e como o prāṇamaya-kośa (corpo energético ou invólucro prânico) dessas pessoas está quase sempre obstruído, é preciso tomar as devidas providências para desobstruí-lo a fim de que a execução do exercício respiratório não cause mais danos. Na verdade, só podemos empreender avanços no campo do prāṇāyāma se o prāṇamaya-kośa estiver completamente desobstruído.1

Como disse em um escrito anterior,2 muitas das assim rotuladas doenças mentais pela medicina alopática moderna são, de fato, desordens no despertar da kuṇḍalinī. Para compreender esse processo através do kuṇḍalinī-yoga, precisamos examinar o conhecimento da Āyurveda. A Āyurveda não é apenas um sistema médico com propósitos de cura ordinária, ela também demonstra como as sutis energias do corpo e da mente funcionam através da prática do Yoga. Assim, ela pode nos auxiliar a despertar estas energias de forma apropriada, mantendo-as em equilíbrio. A prática do kuṇḍalinī-yoga sob uma perspectiva ayurvédica facilita sua eficiência. Muitos dos fundamentos práticos do kuṇḍalinī-yoga são encontrados na Āyurveda enquanto que as práticas espirituais da Āyurveda estão conectadas ao kuṇḍalinī-yoga.

A Āyurveda se baseia na teoria dos tridoṣas, o conceito de três humores biológicos (doṣas): vāta – ar, pitta – fogo e kapha – água. Estas três forças poderosas do macrocosmo são forças que estruturam o microcosmo (o corpo). Portanto, estes três humores aparecem como diferentes tipos constituintes. A Āyurveda vê o indivíduo como uma manifestação predominante de um destes três humores. Mas não é a compreensão destes humores corporais ou doṣas que nos fará entender as desordens causadas pelo despertar da kuṇḍalinī, mas a sua contra parte sutil ou espiritual: prāṇa, tejas e ojas. Através da compreensão da contra parte espiritual dos humores corporais é mais fácil entender também como essa energia sutil da kuṇḍalinī se torna ativa através dos processos yogīs.
Os doṣas sutis: prāṇa, tejas e ojas

As três essências sutis dos humores biológicos podem ser definidas como:

1.     Prāṇa – que significa energia ou força vital, cujo veículo é a respiração, como vāta, é a energia do ar, mas em uma forma sutil. Representa a habilidade de movimentar os pensamentos e percepções. É a força mestre que guia a inteligência por detrás de todas as funções psicofísicas. Responsável pela coordenação da respiração, dos sentidos e da mente. É responsável também pela expansão e harmonização dos elevados estados de consciência.
2.     Tejas – que significa fogo ou brilho – como pitta, é a energia do fogo ou digestão, mas em sua forma sutil, como o poder de digerir idéias ou emoções. É a vitalidade através da qual digerimos impressões e pensamentos. Governa a expansão de todas as elevadas capacidades de percepção.
3.     Ojas – que significa força subjacente – como kapha, é a energia da água em sua forma sutil, como o fluído essencial da reserva de energia de toda a estrutura psicofísica ou a capacidade fundamental da paciência, tolerância e persistência. É a energia sutil da água armazenada como essência vital internalizada da comida digerida, água, ar, impressões e pensamentos.

Nós podemos dizer que prāṇa, tejas e ojas são as energias espirituais ou sutis dos elementos ar, fogo e água. Eles são os elementos em sua forma sublimada e refinada, saturada com a energia da consciência.3 Mais especificamente, são a raiz energética por detrás de toda manifestação e criação, tanto com forma quanto sem forma. Eles contém os poderes dos tanmātras (elementos sutis dos potenciais sensoriais, i.e. os órgãos de ação e percepção).4

O kuṇḍalinī-yoga integra uma ciência sutil e uma tecnologia que promove o desenvolvimento de poderes elevados latentes além do complexo corpo-mente. Ele ensina que nós somos o laboratório. Nosso próprio complexo psicofísico é o campo de experimentação. Não podemos esperar desenvolver as habilidades supra-sensíveis da kuṇḍalinī se não cultivarmos a paciência e a determinação de um cientista. Caráter maduro, mente unidirecionada e continuidade de propósito são necessários.

Se alguém tenta desenvolver tejas ou prāṇa sem o suporte adequado de ojas muitas dificuldades podem aparecer no processo. Essa é a causa das muitas assim chamadas desordens na experiência da kuṇḍalinī que aparecem hoje em dia. Tais desordens usualmente envolvem o desarranjo de prāṇa, tejas e ojas, energias sutis conectadas a experiência da kuṇḍalinī que, muito raramente, expande ou ascende acidentalmente.5

Através de ojas temos a capacidade de adquirir e preservar grande quantidade de energia. É como uma grande quantidade de watts em nossa lâmpada (a mente). Tejas é como a corrente elétrica que passa através da lâmpada, enquanto prāṇa é avelocidade da corrente. Se ocorre o aumento de tejas e prāṇa no organismo, mas sem o equivalente em ojas, é como tentar colocar mil watts em uma lâmpada de cem watts. A lâmpada irá explodir! Portanto, muitas das desordens meditativas e principalmente na experiência da kuṇḍalinī ocorrem por insuficiência de ojas no organismo. Isso causa um desequilíbrio que impossibilita ainda mais a capacidade de desenvolver as potentes energias que todos buscamos manipular.
A menos que controlemos nossa energia sexual, a menos que nossa dieta seja pura e nutriva, a menos que tenhamos fé, equanimidade e devoção – a menos que ojas seja apropriadamente cultivado e preservado – nós não teremos a fundação apropriada para empreender práticas intensas de prāṇāyāma, mantra e meditação, mesmo que compreendermos a prática conceitualmente. Se nos lançarmos a estas práticas sem essa fundação nós podemos até conquistar determinadas experiências, mas elas muito provavelmente serão corruptas, ilusórias ou enganosas. Não é suficiente para nosso intelecto (tejas) ser perspicaz. Nós devemos ter um estilo de vida que suporte uma quantidade suficiente de ojas que proporcione a base para prática espiritual.

As assim chamadas desordens da kuṇḍalinī envolvem o movimento errado do prāṇa no corpo, o que causa disturbios mentais, disfunções neuro-musculares ou o desenvolvimento prematuro de tejas que literalmente queima o sistema nervoso. A perda do equilíbrio e a irregularidade do sistema digestivo é um desarranjo de samāna-vāyu (o ar equilibrante). O movimento descontrolado dos membros é um desarranjo de vyāna-vāyu (o ar difuso). Fala ou tosse descontrolada é um desarranjo de udāna-vāyu (o ar circulante). Hipersensibilidade é um desarranjo de śthūla-prāṇa-vāyu (o ar ascendente). Problemas com o sistema urogenital é um desarranjo de apāna-vāyu (o ar descendente).

Desequilíbrio em tejas provoca queimação na região da cabeça, sensibilidade a luzes radiantes, mal humor, irritabilidade e raiva. Estes desequilíbrios podem ser abrandados pelo desenvolvimento de ojas que, entretanto, leva tempo e requer paciência.

Nós notamos que os indivíduos com uma baixa taxa de ojas no organismo apresentaram disfunções mediúnicas pela sobrecarga e inabilidade em controlar a mente e as emoções. Tais indivíduos se tornam predispostos a possessão de espíritos e entidades, sem controle algum sobre este processo, o que causa dano ao equilíbrio corporal e mental. Esse desequilíbrio causa a falta de tejas, o que torna o processo mais intenso e mais difícil de ser controlado, pois faltam percepção real e discriminação acurada.

O processo de kuṇḍalinī-yoga envolve o despertar da força mental sutil (iḍā) e da força prânica sutil (piṅgalā). Através de técnicas como āsanas, prāṇāyāmas, mudrās e bandhas essas forças podem ser equilibradas. Muitas das pessoas que nos procuram apresentam um profundo desequilíbrio nessas energias sutis. Quando há um excesso no funcionamento de piṅgalā, ocorre um aumento de tejas, o que satura pitta. O excesso de calor gera raiva, orgulho e aumenta a atuação do ego na personalidade que, por sua vez, cria hábitos e conduta tirânica, arrogante, insolente e soberba. Quando há um excesso no funcionamento de iḍā, ocorre um aumento de ojas, o que satura kapha. A pessoa passa a se sentir pesada, preguiçosa e desenvolve habilidades que perturbam sua constituição energética, bloqueando o prāṇamaya-kośa. Sob essas circunstâncias, ela pode apresentar estados emocionais instáveis. Quando ocorre um desequilíbrio entre estas duas nāḍīs o indivíduo pode apresentar desordens de vāta tais como insônia, alucinação, medo e ansiedade. De acordo com o kuṇḍalinī-yoga essas desordens nas nāḍīs iḍā e piṅgalā podem ser corrigidas através da prática terapêutica do prāṇāyma.

A natureza da mente se compõe por três qualidades ou modos de manifestação distintos conhecidos como guṇas: tamas, rajas e sattva. Tamas é inércia; rajas é dinamismo e sattva é estabilidade. Por exemplo, uma rocha representa tamas, o homem rajas e a espiritualidade sattva. A mente torpe ou sem consciência é tamásica, i.e. inerte. A mente oscilante que vai de um extremo ao outro, da consciência a total falta de consciência é rajásica ou dinâmica. Finalmente, a mente estável e unidirecionada é essencialmente satvica. Tamas é o primeiro estágio na evolução e seu caminho é ir em direção a rajas e depois tornar-se sattva. No estado de tamas, tanto rajas quanto sattva são forças potenciais. Em rajas há traços de tamas e sattva e em sattva já não existem traços de tamas ou rajas, não há mais influência deles.

Durante a prática de prāṇāyāma a mente deveria estar estável, desperta, sem oscilar entre um pensamento e outro. Dessa maneira, todo o sistema se torna receptivo a influência do prāṇāyāma. Quando a mente se encontra inerte (tamas), algumas nāḍīs permanecem inertes e fechadas. As impurezas depositadas obstruem a passagem da energia. O mesmo ocorre com a mente oscilante (rajas). Mas quando a mente se encontra estável (sattva), a consciência interior cresce rapidamente e o prāṇa se acumula no organismo, pois a passagem da energia pelos condutos (nāḍī) percorre todo o corpo.

Quando suṣumnā desperta, aumentamos o caudal de sattva na mente. Quando rajas é predominante, piṅgalā-nāḍī está operando dinamicamente. Quando tamas é predominante, iḍā-nāḍī está em atividade. Portanto, prāṇāyāma é melhor aproveitado quando o fluxo de energia (prāṇa) está fluindo por suṣumnā. Quando a respiração está fluindo naturalmente através de ambas as narinas, significa que suṣumnā está ativa. Geralmente nós não conseguimos respirar por ambas as narinas de forma equilibrada. Usualmente uma narina se encontra aberta e a outra parcialmente ou completamente fechada. A ciência chama isso de ritmos alternados. O Yoga chama de swara.

A ciência do swara-yoga diz que o fluxo da respiração se alterna em iḍā e piṅgalā-nāḍī aproximadamente a cada noventa minutos. A ciência já observou este processo de alternância respiratória e o associou as funções dos hemisférios esquerdo e direito do cérebro. Portanto, na medida em que o fluxo da respiração se alterna nas narinas, o cérebro também altera suas atividades, de um hemisfério ao outro. Quando a respiração flui através da narina esquerda, iḍā-nāḍī e o hemisfério direito do cérebro estão em atividade. Quando a respiração flui pela narina direita, piṅgalā-nāḍī e o hemisfério esquerdo do cérebro estão em atividade.

Piṅgalā-nāḍī é de natureza masculina, dinâmica. Iḍā-nāḍī é de natureza feminina, passiva. O hemisfério esquerdo do cérebro opera com o dinamismo de piṅgalā-nāḍī. Processa informação de maneira lógica, seqüencial e funciona de acordo com o tempo-espaço estabelecido. O hemisfério direito do cérebro está concernido à intuição, criatividade e orientação espacial (iḍā-nāḍī). Quando os dois hemisférios funcionam simultaneamente a energia que antes oscilava de um hemisfério ao outro agora opera consistentemente em todo cérebro. Ela passa através da fina membrana entre os dois hemisférios conhecida como corpus callosum. Neste momento, todo o cérebro passa a operar em sua capacidade máxima e a percepção do mundo já não se limita a um modo distinto de processar as informações que vêm de dentro ou de fora de nós.

De acordo com o swara-yoga, durante o fluxo de energia em iḍā, nós deveríamos executar atividades que requerem criatividade e intuição. Durante o fluxo da energia em piṅgalā, deveríamos executar trabalhos físicos ou atividades intelectuais. Durante o fluxo da energia em suṣumnā, deveríamos executar dhyāna (meditação) e yoga-abhyāsa (prática disciplinada e contínua de Yoga).

Os fatores que influenciam o fluxo de prāṇa nas nāḍīs são:

·         Estilo de vida
·         Dieta
·         Desejos
·         Pensamentos e emoções

Quando a personalidade é equilibrada e não existem condições extremas na mente e corpo, a respiração será harmonizada.

Portanto, em nosso trabalho utilizamos a combinação terapêutica do kuṇḍalinī-yoga com a Āyurveda. Ao contrario do que muitos podem pensar, o kuṇḍalinī-yoga não é apenas um método de preparação para o despertar espiritual, mas também é uma ciência muito importante no campo da saúde e da cura. Desde os tempos antigos o kuṇḍalinī-yoga tem sido usado por yogīs e ṛṣīs para o alívio e eliminação de todos os tipos de doenças, distúrbios e defeitos. É verdade que as práticas exigem um pouco mais de tempo e esforço por parte do paciente do que as terapias convencionais. Os resultados são muito positivos, além de poupar o paciente de despesas enormes com medicamentos. Portanto, certamente vale à pena.

Anotações

1. Veja o artigo do autor Desobstruindo o Prāṇamaya Kośa. Revista Yoga Vidyā, Vol. 1, No. 4. Kaula Yoga Publicações, 2012. Veja também o artigo Prāṇa, Prāṇa Nigraha & Prāṇāyāma. Revista Yoga Vidyā, Vol. 1, No. 3. Kaula Yoga Publicações, 2011.

2. Kuṇḍalinī & Esquizofrenia. Artigo disponível no blog do autor: www.srikulacara.blogspot.com.

3. O kuṇḍalinī-yoga dá muita importância à consciência. Existem vários estados de consciência segundo o Tantra e é o objetivo do kuṇḍalinī-yoga transformar e elevar os estados mais densos de consciência para os níveis mais altos.

4. Nos tattvas de manifestação do universo, como os jñānendriyas (poderes de percepção) e karmendriyas (poderes de ação), os tanmātras surgiram do aspecto tamas de ahaṃkāra (o ego) e servem como moldes para a percepção da mente no universo de múltiplas formas, nomes e cores. O nome tanmātra literalmente significa simplesmente (mātra) aquilo (tat) e refere-se ao fato de que um tanmātra é apenas algo sem nenhuma diferenciação em particular, sendo apenas uma forma de medida comparativa que estabelece padrões separados. P.e. rūpa-tanmātra é apenas uma cor paterna, e não uma cor em particular como o preto, branco, azul etc.

5. Desde a publicação dos artigos Kuṇḍalinī & Esquizofrenia, A Alquimia da Kuṇḍalinī & Transmutação sexual, Yoga & Espiritualidade, Tantra, Neotantrismo & Brahmacarya (todos disponíveis no blog do autor) e do último, Gṛhastha Brahmacarya & o Despertar da Śakti (Revista Yoga Vidyā, Vol. 1, No. 3), nós recebemos inúmeros relatos de pessoas que, de alguma maneira, segundo elas mesmas, passaram pela experiência da kuṇḍalinī. Infelizmente, o que comprovamos é que muitos dos relatos que chegaram até nossas mãos eram descrições irreais do processo, alucinações e devaneios. A maioria dessas pessoas demonstrou um profundo desequilíbrio psicológico e energético. Seus relatos afirmavam que a kuṇḍalinī, neles, despertou espontaneamente. Isso pode ocorrer, como enfatizamos no artigo Kuṇḍalinī & Esquizofrenia, mas são raros os casos. Pelo menos no Brasil nós não conhecemos nenhuma pessoa que tenha despertado a kuṇḍalinī completamente de forma espontânea. Conhecemos sim pessoas com desordens no despertar, o que é muito comum. A Āyurveda considera muitas das doenças mentais como desordens no despertar da kuṇḍalinī, mas isso não significa que todas as pessoas que tenham problemas mentais estejam passando necessariamente pela experiência do despertar e ascensão da kuṇḍalinī. Nós criamos um grupo no Yahoo e no Facebook para discutir essas experiências e o processo do kuṇḍalinī-yoga. Todos são bem vindos para participar.

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