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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Tradição Tântrica



Por Fernando Liguori

Abhinavagupta é o principal expoente da filosofia Trika ou Pratyabhijñā, popurlamente conhecida como Śaivismo da Caxemira. O Śaivismo da Caxemira se destaca como o mais proeminente sistema da tradição tântrica e Abhinavagupta seu maior expoente.[1] Como Abhinava é um filósofo tântrico, é relevante, mesmo necessário, prover uma introdução a cultura tântrica. Para demonstrar a importância e o significado de Abhinava, primeiro devemos demonstrar o significado da filosofia tântrica em si.

No público em geral existe uma incompreenção ou má compreensão acerca do Tantra. Se acredita que a execução de práticas tântricas como o uso de fórmulas mágicas ou mantras, invocações de espíritos e deidades místicas pode-se adquirir, como resultado, poderes mágicos (siddhis) e experiências inquietantes. Mas este entendimento acerca do Tantra é uma atitude tola, ingênua, infantil, pois o Tantra é uma cultura ampla que abrange todos os aspectos da vida. A tradição possui uma concepção particular da Realidade e estilo de vida. Ela apresenta um arranjo de valores que por um lado são eticamente corretos e por outro, prazerosos e satisfatórios ao indivíduo; portanto, é uma filosofia prática. Baseados na experiência indutiva (āgama ou āgamana) dos videntes e yogīs, o que foi largamente verificado por uma longa tradição de experimentação, a sabedoria tântrica forma a base para uma vida feliz e saudável, tanto para o indivíduo quanto para sociedade. O Tantra demonstra em como aceitar e utilizar o mundo e as circunstâncias do dia-a-dia de forma a se tornarem meios para auto-realização. Ele apresenta uma visão integral da vida que sintetiza o prazer (bhoga) e a liberação (mokṣa), assim como o envolvimento com o mundo (pravṛtti) e o caminho da renúncia (nivṛtti). O Tantra advoga um tipo especial de Yoga que vê tudo como sagrado e bom. A mensagem do Tantra é tanto adequada para a era em que vivemos quanto intemporal.

Outro entendimento incorreto, muito comum entre os acadêmicos, é que a tradição vêdica somente forma a tendência básica da cultura indiana e que a tradição tântrica seja uma corrente tangencial, a margem social ou mesmo degenerada e pervertida. Esse é um mal entendido colossal e nunca esteve tão longe da verdade. As āgamas ou tantras possuem uma importância equivalente aos vedas na formação da cultura indiana. A tradição tântrica possui algo muito importante a dizer e isso não deveria ser ignorado se é que desejamos ter uma visão completa da filosofia, religião e cultura da Índia.

Tanto os vedas (nigama) quanto os tantras (āgama) têm um caráter revelatório, pertencentes a um conhecimento da realidade que é extra-empírico ou esotérico. Se isso é real, porque precisamos dos tantras se já existem os vedas? Os tantras são redundantes ou trazem uma menagem diferente? Lado a lado com os vedas, os tantras possuem um significado especial, um significado que complementa os vedas. De acordo com os vedas e os tantras, a Realidade Última é Consciência (citi ou saṃvit), conhecida pelo nome de Brahman ou Śiva. A natureza dessa Consciência é tanto conhecimento (jñāna) e atividade ou dinamismo (kriyā) e é este aspecto dinâmico da Relidade que é responsável pela manifestação do mundo. Este conceito de dinamismo, embora não explicitamente explicado, está implicitamente presente nos vedas e nas upaniṣads e o implícito é feito explícito nos tantras. A elocução das upaniṣads concernente a Criação claramente sugerem a existência de um princípio dinâmico em Brahman. É dito nas upaniṣads que o mundo saiu ou foi emanado de Brahman[2] e que Ele quis: deixe que eu me torne muitos e reproduza.[3] Estas declarações sugerem kriyā ou spanda. A declaração de que todas as coisas vêm da própria bem-aventurança[4] se refere em termos inequívocos a spanda. Tais declarações não podem ser explicadas como fábulas ou fantasias míticas (ākhyāyikās) como os vedantins o fazem.[5]

Portanto, as upaniṣads aceitam o aspecto dinâmico da Realidade, mas elas não explicam completamente este dinamismo. Mas essa tarefa foi cumprida pelos tantras. Nos tantras, o dinamismo da Realidade foi completamente explanado; o aspecto imanente de Brahman foi trazido à tona. Como resultado, no Tantra há uma atitude extremamente positiva em relação a Criação.

Os tantras complementam os vedas em um outro sentido. O Veda é chamado de nigama ou nigamana, que significa dedução. O Tantra é chamado de āgama ou āgamana, que significa indução. Acredita-se que o Veda foi revelado de uma fonte superior – os videntes não eram os autores dos vedas, eles apenas os recebiam ou os percebiam. Portanto, as declarações contidas no Veda têm de ser aceitas como premissas das quais conclusões foram deduzidas. Então o conhecimento vêdico são deduções (nigamana) provindas de premissas reveladas. O Tantra, por outro lado, se baseia na evidência da experiência dos videntes e yogīs. É uma tradição yogī. Abhinavagupta dá o nome de anubhava-sampradāya, a tradição da experiência.[6]

Não estou dizendo que o Veda não acredita na verificação do conhecimento revelado ou que o Tantra não acredita na revelação. Ambos acreditam em ambos, mas o conhecimento vêdico vem principalmente do processo de revelação, enquanto que o conhecimento tântrico vem através da experiência. Na tradição indiana, revelação e experiência são consideradas complementares – o que é revelado pode ser confirmado pela experiência. O conhecimento vêdico é confirmado na experiência e esta confirmação experimental é a função do Tantra. Neste sentido, Tantra (āgama) é complementar ao Veda (nigama).

A forma externa do Tantra sugere que ele foi revelado pelo Senhor Śiva, da maneira em que é apresentado o seu diálogo com Pārvatī, sua consorte. Portanto é possível conceber o Tantra como uma revelação, mas a natureza especial do Tantra é que ele é baseado na experiência. Os videntes e yogīs experimentaram a verdade e o Tantra pode ser tido como o registro de suas experiências, sendo o diálogo entre Śiva e Pārvatī um artifício literário cuja intenção é tornar atraente este registro.

Abhinavagupta interpreta o diálogo entre Śiva e Pārvatī como um diálogo dentro de nossa própria consciência, entre os dois níveis de consciência. Ele diz: O Ser, que é alto-luminoso e que está presente em todas as formas, tanto questiona e responde a si mesmo como se estivesse dividindo a si mesmo como inquiridor e inquirido, mas ao mesmo tempo.[7] Também é dito que o Senhor Śiva foi quem, tomando a forma de professor e discípulo, revelou o Tantra por meio de perguntas e respostas.[8] Portanto, o diálogo é entre o buscador interior e do Ser que responde. Aquele que questiona é o ser inferior (aṇu) e o Ser que responde é Śiva, o Absoluto. A mesma interpretação pode ser dada ao diálogo entre Arjuna e Kṛṣṇa na Bhagavadgītā.[9]

Mesmo que o diálogo fosse compreendido literalmente e o Tantra fosse considerado uma tradição revelatória, não haveria discrepância. As noções gêmeas de que por um lado o Tantra foi revelado por Deus e por outro ele foi experimentado por videntes e yogīs são compatíveis, pois como eu disse acima, o que é revelado pode ser confirmado pela experiência. A tradição tântrica aceita os dois pontos de vista.

Assim, podemos inferir que a tradição tântrica, sendo altamente significante em seu próprio contexto, é também complementar a tradição vêdica das upaniṣads. As ideias tântricas que estão implícitas e às vezes explicitamente expressas nos vedas e nas upaniṣads, estão completamente reveladas nos tantras. Portanto, Veda e Tantra formam a mesma linha de pensamento quando olhamos mais atentamente. Aqueles que compilaram os tantras em um período pós-vêdico[10] estavam conscientes dessa continuidade e unicidade entre as tradições vêdica e tântrica; eles deixaram isso bem claro nas escrituras, está lá, para todos terem acesso. No Kulārṇava-tantra o Senhor Śiva diz a sua consorte, Pārvatī: Os seis sistemas da filosofia vêdica são os membros do meu corpo como os pés, estômago, mãos e cabeça; aqueles que os diferencia está desmembrando meu corpo. E todos estes são os seis membros do Kula; portanto, ó minha amada, conheça a disciplina vêdica para se tornar uma kaulika tāntrika.[11]

O Tanta não desfruta o status de ser complemetar ao Veda. Seu complemento é apenas incidental. De fato, o Tantra tem um status autônomo e idenpendente. Seria bastante rasoável ver o início da tradição tântrica no tempo em que os videntes, sem nenhuma fidelidade ao Veda, independentemente questionavam a vida, fazendo investigações práticas na busca da consciência e finalmente encontando suas respostas. As descobertas dos videntes tântricos complementa o conhecimento vêdico ou qualquer outra tradição, mas da mesma maneira, incidental. O significado da tradição tântrica reside não em seu complemento ao Veda ou qualquer outra tradição, mas no seu potencial automono como uma filosofia de vida completa e perfeita.

De alguma maneira, o Tantra é mais completo e mais importante que o Veda. A razão por trás desta declarasçao é simples. O Tantra é o Veda mais o Tantra; o Veda é o Veda mais o Tantra em sua forma implícita. Quer dizer, o Tantra, além de sua própria sabedoria, incorporta completamente a sabedoria do Veda, mas o Veda contém a sabedoria do Tantra apenas na forma implícita e requer que o Tantra a faça explícita.

Além do mais, os ensinos das āgamas são epistemologicamente mais sólidos do que os ensinos do nigama. O que é obtido pela experiência é conhecimento científico e ele é confirmado por si mesmo, ele não precisa da revelação para confirmá-lo. Ao contrário, a revelação requer a experiência para sua confirmação. Revelação sem experiência permanece como um objeto de fé e não se transforma em conhecimento. A confirmação vem da experiência, não da revelação.

O Tantra pode ser chamado de ciência e ao chamar o Tantra de ciência, não estou mudando o significado essencial do termo «ciência» e nem o utilizando incorretamente. A razão é o princípio geral que subjaz o método científico. Ciência é o estudo racional de qualquer coisa. A razão torna claro que o estudo baseado na especulação ou na fé não pode ser seguro; nós só podemos depender daquilo que podemos observar e cognizar. Portanto, a ciência não se baseia na fé ou na especulação, mas na experiência ou cognição.[12] A razão também deixa claro que normalmente nós só possuímos um modo de experiência, que é tanto empírico como sensorial. Experiência no contexto da ciência significa experiência empírica. Portanto, a ciência também pode ser definida coo um estudo empírico.

Mas utilizando a mesma faculdade da razão, torna-se claro que a ciência é baseada na experiência empírica não pela definição mas simplesmente porque no presente a ciência sabe de nenhum modo de experiência que não seja empírica. Se outro modo de experiência for descoberto, não haverá hesitação por parte de ninguém em chamá-lo de cintífico. Então o único obstáculo seria provar que a experiência é genuína e não um devaneio, uma alucinação ou uma ilusão. Ela se torna científica pela virtude de ser uma experiência.

O Tantra é baseado na experiência dos videntes, yogīs e experimentos espirituais. A eles é solicitado investigar a natureza interior e os potenciais da humanidade, fazendo amplos experimentos tanto no nível individual quanto no social. Seu laboratório é o ser humano e, por extenção, a sociedade. Eles não possuem métodos modernos ou facilidades para o registro dos ensinamentos, processo de arquivo de dados; mas eles têm o seu próprio método particular. A fim de registrar suas descobertas de forma agradável e interessante, não adotam a linguágem científica prosaica, mas expressam suas descobertas em termos poéticos utilizando metáforas, símbolos e alegorias.

As descobertas dos videntes tântricos foram verificadas e confirmadas por uma duradoura tradição de yogīs que perciste até os dias de hoje. Qualquer um pode verificar a verdade destes resultados por si mesmo e isso não envolve risco algum. Assim, o Tantra é uma ciência – uma ciência espiritual. Da mesma maneira que existe a ciência material, existe também a ciência espiritual, cuja metodologia é a investigação espiritual. A ciência material tem a tecnologia como uma fórmula de aplicação. Da mesma maneira, a ciência espiritual também tem uma tecnologia e essa tecnologia é chamada de Yoga. O Tantra apresenta o Yoga de uma forma bem variada. Da mesma maneira que a tecnologia da ciência material é utilizada nos mais diversos campos, o yoga tântrico, a tecnologia da ciência espiritual, é aplicado nas mais distintas áreas da natureza humana.

Não devemos nos ocupar pensando que tudo o que foi escrito no extenso corpo dos tantras foi baseado na experiência somente. Da mesma maneira que nem tudo o que está escrito nos vedas é revelação, nem tudo o que está escrito nos tantras é experiência. Os textos tântricos também contêm muito material hipotético, hiperbólico ou até mesmo irrelevante. Se formos ter uma visão realista do Tantra sem nenhum tipo de apego sentimental indevido aos textos tântricos, devemos cuidadosamente extirpar elementos desnecessários para compreender a verdadeira posição tântrica.

Não há dúvida de que a razão seja a única ferramenta disponível para cumprir a tarefa e o único critério de avaliação. Nem o sobrenatural se opõe a razão. Estar além da razão significa ser incognoscível pela razão, não pelo irracional ou anti-racional. Portanto, a razão é a melhor ferramenta e o melhor critério para determinar a real intenção do Tantra, da mesma maneira que é a melhor ferramenta para julgar qualquer coisa. Mesmo quando aceitamos a revelação (śruti), o fazemos porque a razão nos diz que não podemos conhecer ou experienciar a Realidade através da razão ou a percepção sensorial. É apenas pela utilização da razão que nos tornamos conscientes das limitações da razão em si e reconhecemos a necessidade de aceitar a revelação. Que a Realidade está além da razão está claro pela própria razão. A razão é requerida não apenas para tornar a revelação inteligível, mas por nos fazer conscientes do caráter da revelação em primeiro lugar.

A posição do Tantra soa não somente lógica e epistemológica, mas também ontológica e axiológica. O Tantra provê uma visão ampla do mundo, satisfatoriamente explicando todos os aspectos da Realidade. Seu conceito metafísico de consciência dinâmica (cit-śakti) com liberdade (svātantrya) como sua natureza, consistentemente explica todos os problemas da Realidade, incluindo a vida e o mundo. As descobertas tântricas apontam o fenômeno da consciência, que chamamos de Ser ou Puro Eu, que aparece em um nível superficial como a ponta de uma grande Realidade que jaz profunda em nosso interior. Consciência é como um iceberg, apenas uma pequena porção dela é visível sobre a superfície ou como um poço artesiano, que está conectado invisivelmente a um profundo e vasto reservatório de água. Se aceitarmos essa premissa, significa que podemnos explorar os níveis profundos de nossa realidade interna passo-a-passo. A auto-realização pode ser alcançada gradualmente. Mesmo em nosso estado normal de consciência temos um grau determinado de auto-realização, pois o poder da consciência (cit-śakti ou kuṇḍalinī-śakti) já está operando em nós na forma das faculdades mentais e processos fisiológicos. É óbvio que esta pequena porção da Consciência irá se manifestar de maneira distinta nas mais variadas pessoas, seja naturalmente ou pelo processo deliberado de descoberta das qualidades da Consciência.[13] Nós podemos estender este processo a manifestação completa da Consciência, auto-realização ou a obtenção de um elevado estado natural de espiritualidade.

A contribuição mais significante do Tantra é no campo axiológico – o campo dos valores. Os videntes tântricos, como os videntes indianos em geral, estavam conscientes desde os primórdios que existem dois tipos básicos de valores na vida. Os valores éticos ou morais por um lado e os valores prazerosos ou que proporcionam felicidade por outro. Os valores morais morais são tecnicamente chamados de śreya, quer dizer, aquilo que é bom; os valores que proporcionam felicidade ou prazer são tecnicamente chamados de preya, quer dizer, aquilo que é prazeroso. No sistema indiano existem quatro valores fundamentais: dharma (satisfação moral), artha (satisfação monetária), kāma (satisfação dos desejos) e mokṣa (auto-realização). Moralidade está conectada aquilo que é bom; a satisfação monetária e dos desejos está conectada aquilo que é prazeroso. Os antigos videntes também estavam conscientes de que na vida existe uma dicotomia muito grande entre aquilo que é bom e aquilo que é prazeroso. As pessoas têm de minar ou suprimir totalmente aquilo que é prazeroso em detrimento daquilo que é bom. Os videntes concluiram portanto que valores que são meramente «bons» sem nenhum elemento de «prazer» são claramente inadequados, nada práticos.

Portanto, os videntes tântricos descobriram um sistema que sintetiza aquilo que é bom e aquilo que é prazeroso, verdade e beleza ou o bom em nós mesmos e o bom nos outros. Eles encontraram a resposta naquilo que chamamos de auto-realização, mokṣa. Mokṣa não é um valor transcendental, mas o alicerce de todos os sucessos na vida. Todos os poderes ou talentos para se trabalhar eficientemente e graciosamente em todos os aspectos da vida vêm do Ser, assim como todo poder elétrico que movimenta o ventilador e ascende a lâmpada vem da usina hidroelétrica. Toda criatividade, artística ou não, vem do Ser. É a partir do Ser que o entendimento iluminado sobre qualquer coisa vem a mente como um lampejo espontâneo (pratibhā). Portanto, quanto mais sintonizados com o Ser estivermos, mais seus poderes florescerão. Portanto, uma pessoa auto-realizada é um professor melhor, um filósofo melhor, um cientista melhor, um líder melhor, um empresário melhor, um gerente melhor etc.

A auto-realização incorpora em si mesma tanto a moralidade quanto a satisfação dos desejos. A moralidade está naturalmente presente em mokṣa por duas razões: primeiro, o Ser que é alcançado em mokṣa é naturalmente bom. É por isso que ele se chama Śiva, que literalmente significa o benigno ou o auspicioso. É ilógico pensar que más ações poderiam surgir de um ser naturalmente benigno. Rāmakṛṣṇa Paramahaṃsa costumava dizer que assim como apenas mel pode cair de um favo de mel, apenas boas ações podem vir do estado-Śiva, quer dizer, o estado de consciência bhairávica.

Segundo, no estado de mokṣa ou auto-realização, o auto-realizado se sente em unidade com o todo, com tudo o que existe. Ele se torna um com tudo.[14] É natural que tal pessoa faça o bem para todos.[15] O que obstrui o Ser é a ignorância (ajñāna). A ignorância é definida como senso de dualidade (dvaita-prathā ou bheda-buddha).[16] É o sentido de que algo ou alguém é o outro.[17] Quando o senso de dualidade é dissipado e o auto-realizado reconhece sua unidade com tudo o que é realizado – quer dizer, o amor universal – então uma das características mais essenciais da auto-realização é conquistada.

O sentido de dualidade é a raiz da imoralidade.[18] Uma pessoa só pode explorar alguém quando ela o considera como algo distinto de si mesma. Mas se ela o considerasse como parte de si mesma, como poderia explorá-la? Uma pessoa auto-realizada não explora ou causa prejuízo a ninguém, pois a auto-realização é um estado de perfeito amor universal. Ao contrário, um auto-realizado ajuda a todos, pois isso é um estado espontâneo de sua moralidade.

Portanto, a auto-realização sintetiza tanto a satisfação dos desejos quanto a moralidade, tanto o prazer quanto o que é bom. Na auto-realização, o maior interesse é o bem das pessoas e o bem das pessoas é o bem de si mesmo e isso é tanto bom quanto prazeroso. Invocando o peso da experiência, me arrisco a dizer que o amor é um dos maiores exemplos ou fenômenos dessa síntese. No amor, o bom para o amante é o bom para o ser amado, o amor se torna um. Uma mãe, por exemplo, sente sua unidade com o filho e sente feclicidade pela felicidade do filho. O amor naturalmente proporciona boas ações por parte do amante em relação ao amado. Contudo, além de promover essa atividade benéfica em relação a pessoa amada, o amor provê satisfação incomensurável, prazer e alegria a pessoa amada. O arrebatamento do amor é tão profundo que apenas o verdadeiro amante pode compreendê-lo em toda sua inteireza. Usando uma frase de Shakespeare, a benção que ele dá é a que ele recebe. O amor é a verdadeira natureza do Ser e um auto-realizado é um verdadeiro amante. O amor é a principal característica dos santos e sábios que alcançaram a auto-realização. Quanto mais realizamos o Ser, maior será o fluxo natural do amor em nós.

A singularidade da concepção tântrica de mokṣa ou auto-realização é dupla: primeiro, de acordo com o Tantra, mokṣa não é um valor transcendental, mas o alicerce de todos os sucessos e conquistas em todos os aspectos da vida; segundo, de acordo com o Tantra, mokṣa não consiste meramente de aquilo que é bom, mas de aquilo que é prazeroso, é uma síntese de ambos. Essa noção de mokṣa modifica a classificação popular indiana dos quatro valores inerentes a vida. De acordo com a classificação popular, dinheiro (artha) e satisfação dos desejo (kāma) estão sob aquilo que é prazeroso e a moralidade (dharma) e auto realização (mokṣa) estão sob aquilo que é bom. Mas de acordo com a classificação tântrica, apenas a moralidade está sob aquilo que é bom, na medida em que mokṣa é a síntese de tanto o que é bom quanto o que prazeroso, então é um valor superior.


[1] Abhinavagupta foi o autor do Tantrāloka (A Luz sobre os Tantras) no qual ele sistematiza a filosofia e religião tântrica de maneira racional e coerente. Portanto, o Tantrāloka é a apresentação mais lógica e racional da filosofia tântrica.
[2] योतोवा इमानि भूतनी जायते, TaitUp, III:1.
[3] तदैक्षत बहुस्याम् प्रजायेयेति, ChānUp, VI:2.3.
[4] आनन्दाद्ध्येव खल्विमानि भूतनी जायन्ते, TaitUp, III:6.
[5] Além do mais, a dourada Umā ou Pārvatī (umā-haimavatī) que aparece na famosa história de Yakṣa na Kena-upaniṣad sugere que Brahman é Śiva e Umā é Śakti. Na tradição tântrica, Umā é sinônimo de Śakti.
[6] अनुभव सम्प्रदायोपदेश परिशीलनेन, PTv, p. 161.
[7] स्वात्मा सर्वभावस्वभावः स्वयं प्रकाशमानः स्वात्मानमेव स्वात्माविभिन्नेन प्रश्नप्रतिवचनात् प्रष्टृ स्वात्ममयेन अहंतया चमत्कुर्वन् विमृशति, PTv, p. 14-15.
[8] गुरुशिष्यपदे स्थित्वा स्वयं देवो सदाशिव्ः।
पूर्वोत्तरपदैर्वाक्यैः तन्त्रं समवतारयत्॥, PTv, p. 12.
[9] Veja Gītārtha-saṃgraha. O comentário tântrico da Bhagavadgītā por Abhinavagupa.
[10] A tradição tântrica já existia em sua forma oral já nos tempos do Veda, mas foi somente no período pós-vêdico que sua doutrina foi compilada nas escrituras.
[11] षड्दर्सन्नानि मेङ्गानि पादौ कुक्षिः करौ शिरः।
तेषु भेदन्तु यः कुर्यान्ममाङ्गं चेदयत्तु सः॥
एतान्येव कुलस्यापि षडञ्गानि भवन्ति हि।
तस्माद् वेदात्मकं शास्त्रं विद्धि कौलात्मकं प्रिये॥, KT, II: 84-85.
[12] Abordaremos este assunto novamente nos próximos estudos do Tantrāloka.
[13] Infelizmente nos encontramos a mercê da falta de palavras para determinar conceitos inteligíveis. Cit ou citi no português traduzimos como consciência, uma palavra que implica relação sujeito-objeto, portanto, dualidade. Mas cit é não-relação. Isso significa que ela tem relação imediata onde o eu e o isto são indistinguíveis.
[14] सर्वभूतात्मभूतात्मा, Bh.G, V: 7.
[15] सर्वभूतहिते रताह्, Bh.G, V: 25.
[16] द्वैतप्रथा तदज्ञानं तुच्चत्वाद् बन्द उच्यते, TĀ, I: 30.
[17] कर्णात् कर्णोपदेशेन सम्प्राप्तमवनीतलम्, YGHṛ, I: 3. Veja também षैवादीनि रहस्यानि उर्वमासन्महात्मनाम् ऋषीणां वक्त्रकुहरे, ŚDṛ, VII: 107.
[18] Abhinava costumava apontar dualidade como egoísmo em seus escritos sobre estética.

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Śrī Tantrālokaḥ [invocações - versos 1-21]

श्रीतन्त्रालोकः

ŚRĪ TANTRĀLOKAḤ



Śrīmadabhinavaguptapādācāryaviracitaḥ


Maṅgala Stuti[1]


{ॐ} विमलकलाश्रयाभिनवसृस्तिमहाजननी
भरिततनुश्च पन्चमुखगुप्तरुप्तरुचिर्जनकः ।
तदुभययामलस्फुरितभावविर्सगमयं
हृदयमनुत्त्रमृतकुलं मम संस्फुर्तात् ॥१॥

vimalakalāśrayābhinavasṛstimahājananī
bharitatanuśca pancamukhaguptaruptarucirjanakaḥ
tadubhayayāmalasphuritabhāvavirsagamayaṃ
hṛdayamanuttramṛtakulaṃ mama saṃsphurtāt ||1||

Ela é gloriosa, a Criação sempre nova;[2] sua fundação, o puro néctar da Lua. Seu corpo está cheio e seu segredo[3] é a Luz adornada com cinco faces. Que a Família[4] do néctar[5] do Absoluto[6], o meu coração, a emissão[7] vibrante e resplandecente do casal unido, Pai e Mãe, pulse.[8]

नौमि चित्प्रतिभां देवीं परां भैरवयोगिनीम् ।
मतृमानप्रमेयांशशूलाम्बुजकृतास्पदां ॥२॥

naumi citpratibhāṃ devīṃ parāṃ bhairavayoginīm  |
matṛmānaprameyāṃśaśūlāmbujakṛtāspadāṃ  ||2||

Eu saúdo a Suprema Deusa Pratibhā,[9] que está além, é infinita e repousa na consciência suprema. Tu que estás unida a Bhairava, cujo assento é o lótus do tridente, além dos três estados da mente.[10]

नौमि देविम् शरीरस्थां नृत्यतो भैरवाकृते ।
प्रावृण्मेघघनव्योमविद्युल्लेखाविलासिनीम् ॥३॥

naumi devim śarīrasthāṃ nṛtyato bhairavākṛte  |
prāvṛṇmeghaghanavyomavidyullekhāvilāsinīm  ||3||

Eu saúdo a Deusa Inferior,[11] que é como um súbito relâmpago[12] produzido das nuvens que cobrem o céu tempestuoso e que reside no sempre dançante corpo de Bhairava.[13]

दीप्तज्योतिश्चताप्लुष्तभेदबन्धत्रयं स्फुरत् ।
स्ताज्ज्न्आनशूलं सत्पक्षविपक्षोत्कर्तनक्षमम् ॥४॥

dīptajyotiśchatāpluṣtabhedabandhatrayaṃ sphurat  |
stājjñānaśūlaṃ satpakṣavipakṣotkartanakṣamam  ||4||

Que a luz resplandecente do Conhecimento[14] destrua os três grilhões[15] com seus raios crepitantes cujo poder consome os obstáculos da bem-aventurança universal e individual.[16]

स्वात्रन्त्र्यशक्तिः क्रमसंसिसृक्षा क्रमात्मता चेति विभोर्विभूतिः ।
तदेव देवीत्रयमन्तरास्तामनुत्तरं मे प्रथत्स्वरूपम् ॥५॥

svātrantryaśaktiḥ kramasaṃsisṛkṣā kramātmatā ceti vibhorvibhūtiḥ  |
tadeva devītrayamantarāstāmanuttaraṃ me prathatsvarūpam  ||5||

Que as três Deusas do poder glorioso do Senhor Todo Penetrante,[17] que são a absoluta autonomia do Supremo,[18] o poder de sua vontade para criar o processo[19] da manifestação do universo e o seu próprio poder, que são os esplendores de Paramaśiva, revele-me o Absoluto,[20] que é minha verdadeira natureza interior.

तद्देवताविभवभाविमहाम्मरीचि
चक्रेश्वरायितनिजस्थितिरेक एव ।
देवीसुतो गणपतिः स्फुरदिन्दुकान्तिः ,
सम्यक्समुच्चलयतान्मन संविदब्धिम् ॥६॥

taddevatāvibhavabhāvimahāmmarīci
cakreśvarāyitanijasthitireka eva  |
devīsuto gaṇapatiḥ sphuradindukāntiḥ,
samyaksamucchalayatānmana saṃvidabdhim  ||6||

Que Gaṇeśa, o Senhor dos exércitos, aquele que habita em si mesmo,[21] filho da Deusa que é linda como a lua radiante, Senhor[22] da Roda dos Grande Raios da consciência sensorial, que são a glória do esplendor das Divindades, agite o oceano de minha consciência.[23]

रागारुणं ग्रन्थिबिलावकीर्णं
यो जालमातानवितानवृत्ति ।
कलोम्भितं बाह्यपथे चकार
स्तान्मे स मच्चन्दविभुः प्रसन्नः ॥७॥

rāgāruṇaṃ granthibilāvakīrṇaṃ  |
yo jālamātānavitānavṛtti  |
kalombhitaṃ bāhyapathe cakāra  |
stānme sa macchandavibhuḥ prasannaḥ  ||7||

O todo penetrante Senhor Macchanda[24] lançou sua rede[25] ao longo do caminho, para fora da Luz. Essa rede de escravidão, cuja cor é vermelha, se espalhou pelo intenso desejo e apego,[26] pela limitação da ação[27] e pela escravidão constituída pelo pensamento equivocado[28] na terra das satisfações.[29] Que ele esteja ao meu favor.

त्रैयम्बकाभिहितसन्ततिताम्रपर्णी
सन्मोक्तिकप्रकरकान्तिविसेषभाजः ।
पूर्वे जयन्ति गुरवो गुरुशास्त्रसिन्धु
कल्लोलकेलिकलनामलकर्णधाराः ॥८॥

traiyambakābhihitasantatitāmraparṇī
sanmouktikaprakarakāntiviseṣabhājaḥ  |
pūrve jayanti guravo guruśāstrasindhu
kallolakelikalanāmalakarṇadhārāḥ  ||8||

Todos os antigos sábios e professores espirituais, grandes, sinceros e agraciados, descendentes da linhagem luminosa de Trayambaka,[30] timoneiros da barca que atravessa o oceano das escrituras, possam sempre estar presentes.

जयते गुरुरेक एव श्रीश्रीकण्ठो भुवि पथितः ।
तदपरमूर्तिर्भगवान् महेश्वरो भूतिराज्श्च ॥९॥

jayate gurureka eva śrīśrīkaṇṭho bhuvi pathitaḥ  |
tadaparamūrtirbhagavān maheśvaro bhūtirājśca  ||9||

Existe um mestre conhecido e sempre presente na terra; ele é famoso e triunfante. É o venerável Śrīkaṇṭha. Como ele, o Mestre Maheśvara, que é outra de suas muitas formas também está, assim como Bhūṭirā.

श्रीसोमानन्दबोधश्रीमदुत्पलविनिःसृताः ।
जयन्ति संविदामोदसन्दर्भा दिक्प्रसर्पिणः ॥१०॥

śrīsomānandabodhaśrīmadutpalaviniḥsṛtāḥ  |
jayanti saṃvidāmodasandarbhā dikprasarpiṇaḥ  ||10||

Que as composições,[31] perfumadas com a fragrância da consciência que se espalha por todas as direções, criadas por Utpaladeva,[32] quem encarnou a sabedoria do venerável Somānanda,[33] triunfem.

तदास्वादभरावेशबृण्हितां मतिषट्पदीम् ।
गुरोर्लक्ष्मणगुप्तस्य नादसंमोहिनीं नुमः ॥११॥

tadāsvādabharāveśabṛṅhitāṃ matiṣaṭpadīm  |
gurorlakṣmaṇaguptasya nādasaṃmohinīṃ numaḥ  ||11||

Prostramos-nos diante da mente divina do grande Mestre Lakṣmaṇagupta, que como o som de uma abelha, é a ressonância da consciência que hipnotiza todos os seres pelo movimento sempre em expansão em direção a manifestação,[34] cheio de sabor e absorção. [35]

यः पूर्णनन्दविश्रान्तसर्वशास्त्रार्थपारगः ।
स श्रीचुखुलको दिश्यादिष्टं मे गुरुरुत्तमः ॥१२॥

yaḥ pūrṇanandaviśrāntasarvaśāstrārthapāragaḥ  |
sa śrīcukhulako diśyādiṣṭaṃ me gururuttamaḥ  ||12||

Que o venerável Śrī Cukhulaka, o melhor dos professores, tendo atravessado todo o oceano das escrituras, descanse em perfeita bem-aventurança e me instrua no que desejo saber.

जयताज्जगदुद्धृतिक्षमोसौ
भगवत्या सह शम्भुनाथ एकः ।
यदुदीरिरितशासनांशुभिर्मे
प्रकतोयं गहनोयं शास्त्रमार्गः ॥१३॥

jayatājjagaduddhṛtikṣamo’sau
bhagavatyā saha śambhunātha ekaḥ  |
yadudīriritaśāsanāṃśubhirme
prakato’yaṃ gahano’yaṃ śāstramārgaḥ  ||13||

Que o Senhor Śambhunātha seja vitorioso! Ele que, unido a sua consorte, tem o poder de elevar todo o universo. Ele que, pelos raios iluminados de suas instruções, clareou o caminho das escrituras para mim, pois embora profundas, são difíceis de entender.

सन्ति पद्धतयश्चित्राः स्त्रोतोभेदेषु भूयसा ।
अनुत्तरषदर्धार्थक्रमे त्वेकापि नेक्श्यते ॥१४॥

santi paddhatayaścitrāḥ strotobhedeṣu bhūyasā  |
anuttaraṣadardhārthakrame tvekāpi nekśyate  ||14||

Existem muitos caminhos incríveis pelas correntes de pensamento, mas nenhum caminho é apropriado para Anuttara Trika Artha.[36]

इत्य्हं बहुशः सद्भिः शिष्यसब्रहाचारिभिः ।
अर्थितो रचये स्पष्टां पूर्णार्थां प्रकृयामिमाम् ॥१५॥

ityhaṃ bahuśaḥ sadbhiḥ śiṣyasabrahācāribhiḥ  |
arthito racaye spaṣṭāṃ pūrṇārthāṃ prakṛyāmimām  ||15||

Existem inúmeros manuais litúrgicos[37] utilizados por várias tradições. Mas nenhum deles é apropriado para os rituais[38] da tradição Anuttaratrika. Portanto, repetidamente solicitado por meus sinceros discípulos e companheiros,[39] eu componho essa liturgia,[40] que é clara e completa.[41]

श्रीभत्तनाथचरणाब्जयुगात्तथा श्री
भत्तारिकाण्घृयुगलाद् गुरुसन्ततिर्या ।
बोधान्यपाशविषनुत्तदुपासनोत्थ
बोधोज्ज्वलोभिनवगुप्त इदं करोति ॥१६॥

śrībhattanāthacaraṇābjayugāttathā śrī
bhattārikāṅghṛyugalād gurusantatiryā  |
bodhānyapāśaviṣanuttadupāsanottha
bodhojjvalo’bhinavagupta idaṃ karoti  ||16||

Eu, Abhinavagupta, faço isso, flamejante com a consciência iluminada a partir da adoração dos pés de lótus do Senhor Bhaṭṭanātha[42] e de sua consorte, a Senhora Bhaṭṭārikā, juntamente com aqueles que os precederam na linhagem dos Mestres. Sua adoração é o antídoto para o veneno que agrilhoa todas as coisas e é contrário a consciência.

न तदस्तीह यन्न श्रीमालिनीविजयोत्तरे ।
देवदेवेन निर्दिष्तं स्वशब्देनाथ लिण्गतः ॥१७॥

na tadastīha yanna śrīmālinīvijayottare  |
devadevena nirdiṣtaṃ svaśabdenātha liṅgataḥ  ||17||

Não existe nada aqui[43] que não seja ensinado pelo Deus[44] dos deuses no Mālinīvijayattara-tantra, seja direta ou indiretamente.

दशाष्टादशवस्वष्टभिन्नं यच्चासनं विभोः ।
तत्सारं त्रिकशास्त्रं हि तत्सारं मालिनीमतम् ॥१८॥

daśāṣṭādaśavasvaṣṭabhinnaṃ yacchāsanaṃ vibhoḥ  |
tatsāraṃ trikaśāstraṃ hi tatsāraṃ mālinīmatam  ||18||

Os ensinamentos do Senhor[45] estão divididos em grupos de dez, dezoito e sessenta e quatro Tantras. As escrituras Trika[46] são o princípio[47] de todas e destas, a Mālinīvijaya-tantra é a essência.

अतोत्रान्तर्गतं सर्वं संप्रदायोज्झितैर्बुधैः ।
अद्र्ष्टं प्रकटीकुर्मो गुरुनाथाज्न्अया वयम् ॥१९॥

Ato’trāntargataṃ sarvaṃ saṃpradāyojjhitairbudhaiḥ  |
adrṣṭaṃ prakaṭīkurmo gurunāthājñayā vayam  ||19||

Dessa forma, sob o comando do Mestre, explicarei tudo o que está contido aqui e que fora negligenciado nas outras escrituras, o conteúdo que não foi notado ou aprendido por aqueles que não pertencem a nenhuma linhagem.
अभिनवगुप्तस्य कृतिः सेयं यस्योदिता गुरुभिराख्या ।
त्रिनयनचरणसरोरुहचिन्तनलब्धप्रसिद्धिरिति ॥२०॥

abhinavaguptasya kṛitiḥ seyaṃ yasyoditā gurubhirākhyā  |
trinayanacaraṇasaroruhacintanalabdhaprasiddhiriti  ||20||

Este é o trabalho de Abhinavagupta, um homem que alcançou a perfeição suprema, meditando aos pés de lótus do Senhor de Três Olhos,[48] conforme ensinado por seu Mestre.

श्रीशम्भुनाथभास्करचरणनिपातप्रभापगतस्सञ्कोचम् ।
अभिनवगुप्तहृदम्बुजमेतद्विचिनुत महेशपूजनहेतोः॥२१॥

śrīśambhunāthabhāskaracaraṇanipātaprabhāpagatassaṅkocam  |
abhinavaguptahṛdambujametadvicinuta maheśapūjanahetoḥ ||21||

A fim de adorar o Senhor,[49] eis que o lótus do coração de Abhinavagupta, cuja ignorância foi erradicada pelos raios solares dos pés de Śambhunātha, floresceu.



[1] O verso-semente que serve como o selo de assinatura e invocação para as obras de Abhinavagupta na tradição Anuttara Trika Kula. Evocando a imagem divina de Śiva e Śakti, as camadas de significado poético nesse verso servem para refrescar e voltar a despertar tanto no falante quanto no ouvinte o estado de consciência de Deus a partir do qual o Tantrāloka foi composto. Os versos 1 a 21 são invocações, saudações aos mestres e gurus.
[2] Abhinava.
[3] Gupta.
[4] Kula.
[5] Amṛta.
[6] Anuttara.
[7] Visarga.
[8] Eu optei por fazer outra tradução deste verso inicial: Deixe meu coração pulsar no que é puro, cuja sede pela arte, é criativo pela união entre Śiva e Śakti. Śakti [mãe Vimalāmbā Devī] que é a criação, o cosmos e a divina mãe e Śiva [pai Bharitatanu] que, sendo o criador, expande, mantém e pulsa com Suas cinco bocas, que oferece a bem-aventurança interna e a expansão externa, cheio de bhāva, visarga e anuttara.
[9] A atividade sempre criativa da Consciência, Consciência Suprema espontânea, parā-śakti (unidade).
[10] Os três estados da mente ou três dentes/pontas do tridente são o sujeito, objeto e o meio de conhecimento com que o sujeito se conecta ao objeto.
[11] Aparā-śakti (diversidade, dualidade).
[12] A súbita emergência da luz.
[13] Paramaśiva, a Realidade Suprema. Esta palavra é um acróstico: bha é bharaṇa, que significa manutenção; ra é ravaṇa, que significa retração da manifestação, projeção; e va é vamana, que significa projeção do mundo.
[14] O tridente resplandecente da Consciência.
[15] Āṇava-mala (contração da vontade, iccha), māyīya-mala (contração do conhecimento, jñāna) e kārma-mala (contração da ação, kriyā).
[16] Satpakṣa e vipakṣa.
[17] Vibhu.
[18] Svātantrya
[19] Krama.
[20] Anuttara.
[21] Nijasthiti.
[22] Cakreśvara.
[23] Saṃvit, Consciência Universal, Consciência Suprema onde existe a fusão completa entre prakaśa (Śiva) e vimarśa (Śakti), jñāna-śakti, svātantrya-śakti.
[24] Literalmente, pescador.
[25] Māyā, o poder de fazer o mundo finito, o princípio que limita e estabelece condições dualistas sobre o Todo.
[26] Rāga, paixão, desejo, apego. Um dos kañcukas (véus) de māyā, por conta de haver limitação pelo desejo.
[27] Kalā, parte, agente limitador. É falsa noção de que há coisas que são possíveis de realizar e outras que são impossíveis.
[28] Granthi, pensamento modificado, alterado, equivocado.
[29] Bil, terra do desfrute, da satisfação dos prazeres, o mundo.
[30] Trayambaka ou Trayambakāditya é o filho do sábio Durvāsā. Nos tempos antigos, os mistérios das śaivāgamas repousavam nas bocas dos sábios. Na kaliyuga, as śaivāgamas tornaram-se raras. Por conta disso, o Senhor Mahādeva (Śiva), na forma de Śrīkaṇṭha, no intuito de abençoar a humanidade, inspirou Durvāsā a criar escrituras que não poderiam ser destruídas. Para tal propósito, Durvāsā projetou através de sua pura consciência o seu filho, Trayambaka. No último capítulo do Tantrāloka, Abhinavagupta diz que somente dois mestres (ou professores) estavam qualificados a ensinar o Śaivismo: Lakulīśa e Śrīkaṇṭha. Do primeiro originou-se a tradição Pāśupata. Śrīkaṇṭha projetou de si mesmo três seres perfeitos: Trayambaka, Āmardaka e Śrīnātha. Eles foram os responsáveis por propagar a doutrina śaiva da não-dualidade (abheda), dualidade (bheda) e a dualidade na não-dualidade (bhedābheda). Importante de se notar aqui, é que a filha de Trayambaka fundou uma quarta escola, conhecida como Ardhatryambaka, identificada como a tradição Kaula.
[31] Escritura, śāstra.
[32] Literalmente, o deus do lótus. Utpaladeva foi o autor da Īśvarapratyabhijñākārikā (As Estâncias do Reconhecimento de Deus). Ele inaugurou a escola Pratyabhijñā, que representa a expressão máxima do Śaivismo monista, sistematicamente elaborado em uma teologia racional de Śiva e uma filosofia de absoluta consciência com a qual Ele é identificado. Utpaladeva compreendeu que a experiência máxima da iluminação consiste de um profundo e irreversível reconhecimento de que a verdadeira natureza humana é Śiva em Si-mesmo. Ele diz: O homem cego pela ignorância (māyā) e confinado por suas ações (karma) é agrilhoado na roda de nascimentos e mortes, mas quando o conhecimento inspira o reconhecimento de sua divina soberania e poder (aiśvarya), ele, completamente consciente, torna-se uma alma liberada. De acordo com Utpaladeva, a alma é confinada porque se esqueceu de sua autêntica identidade e pode somente alcançar a liberação, o mais elevado objetivo da vida, pelo reconhecimento de sua verdadeira natureza universal.
[33] O professor de Utpaladeva foi Somānanda cuja Visão de Śiva (Śivadṛṣṭi) fora o primeiro trabalho da escola do Reconhecimento. Somānanda viveu no final do Séc. IX d.C. e foi, ele mesmo diz, o décimo nono na linha de sucessão de Trayambhaka. Trayambhaka, de acordo com Somānanda, foi o filho nascido da mente de Durvāsā, quem lhe ensinou os princípios do monismo Śaiva após tê-los aprendido direjtamente de Śrīkaṇṭha no Monte Kailāsa. Trayambhaka figura novamente em outro relato, desta vez em um que se refere a origem da tradição Trika. O relato é o mesmo da nota 30 acima: De acordo com esta história, Durvāsā foi instruído por Śrīkaṇṭha a espalhar a sabedoria Trika (ṣaḍardhakrama) a qual é a essência do segredo de todas as escrituras Śaivas. Durvāsā então gerou de sua mente tres yogīs perfeitos: Trayambhaka, Āmardaka e Śrīnātha, que, respectivamente, revelaram a doutrina Śaiva da não-dualidade, dualidade, e não-dualidade com dualidade. Destes, a linhagem (sampradāya) fundada por Trayambhaka que transmite a doutrina monista do Śaivismo não é outra senão a Trika. Acima este relato esteve conectado a fundação da tradição Kaula. Para sanar essa dúvida, Jayaratha, o mais proeminente comentador do Tantrāloka, mantém que a tradição Kaula originou-se da filha de Trayambhaka (como mencionado na nota 30) e foi identificada como kula-prakriyā. Aqui ele faz uma distinção com a linhagem tantra-prakriyā que, segundo ele, se refere aos ensinamentos não-dualistas oriundos de Trayambhaka, ou seja, a escola Trika.
[34] O primeiro movimento de Śiva e Śakti em direção a manifestação, quando Śakti preenche todo o universo com nādānta. Neste ponto ela é chamada de nāda. É a experiência do som sibilante da kuṇḍalinī-śakti na suṣumṇā-nāḍī. Também, sadāśiva-tattva no esquema dos 36 princípios de manifestação do universo.
[35] Āsvāda e āveśa.
[36] O triplo significado de que nada é superior a este caminho.
[37] Paddhati.
[38] Krama.
[39] Brahmacāris.
[40] Prakriyā.
[41] Os versos 13, 14 e 15 devem ser lidos e interpretados em conjunto.
[42] I.e., Śambhunāta.
[43] No Tantrāloka.
[44] Śiva Śaṅkara.
[45] Idem.
[46] Śāstra, escritura; Trika, sistema de filosofia da tríade Śiva, Śakti e Nara ou parā, parāpara e apara.
[47] Tattva, princípio, realidade, a essência de algo.
[48] Śiva.
[49] Maheśa.

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