quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Yoga Postural não é Yoga, é Ego Yoga


Por Fernando Liguori

Um artigo da série Yoga, Espiritualidade & Moralidade

Como venho enfatizando, āsanas não são exercícios ardorosos, mas posturas recreativas que revigoram o corpo cansado dotando-lhe de energia.

Swami Satyananda Saraswati

Aqui no Ocidente, quando olhamos para o Oriente, vemos um grupo de idéias e conceitos que, na maioria das vezes, nos parece exótico. Quando o Yoga foi introduzido no Ocidente, inapropriadamente, o primeiro método de prática que foi apresentado como Yoga foram às posturas (āsanas). Por conta desta má apresentação, hoje, quando as pessoas ouvem falar ou pensam sobre Yoga, na maioria das vezes – e isso é o mais provável – o que vem a mente é que esta é uma disciplina exótica de aptidão física onde os adeptos retorcem o corpo. No entanto, as pessoas mais bem-informadas sabem que o Yoga é uma tradição milenar, cujo foco é a realização espiritual, a liberdade interior e a superação do sofrimento por meio da transcendência do ego. Assim, o Yoga é, sobretudo, uma prática espiritual.[1]

O Yoga, conforme praticamos hoje no Ocidente, sem querer generalizar, está completamente destituído de sua principal característica: a espiritualidade subjacente que permeia esta tradição. É realmente estranho que muitos mestres populares tenham retirado do escopo do Yoga sua orientação espiritual, negando-lhe qualquer relação com a espiritualidade, a disciplina mental e o desenvolvimento interior.

B.K.S. Iyengar, um expressivo mestre de Yoga contemporâneo – assim como outros –, quando chegou ao ocidente, demonstrou o Yoga na forma de posturas. Isso nos chamou a atenção. Isso nos envolveu. Então, a exótica prática de exercícios corporais do Yoga ganhou adeptos. Descobrimos que através da execução destas posturas nosso corpo poderia se manter saudável, forte, flexível e livre de doenças. Assim, a maioria das pessoas que praticam āsana no Ocidente o fazem como exercício corporal. Para estas pessoas, os āsanas se tornaram o verdadeiro e real significado do Yoga. Em outras palavras, a postura, cujo fundamental objetivo é revelar a verdadeira natureza mais intima de cada um de nós, passou a ser pose, cujo objetivo fundamental é fortificar a realização do ego.

Contudo, desde os primórdios da tradição, o Yoga tem estado intimamente relacionado com a aspiração espiritual de penetrar o véu que envolve a mente comum (manas) com o objetivo único de ver a Realidade tal como ela é, muito além dos dogmas, das doutrinas, suposições e hipóteses. Portanto, sem meias palavras, o Yoga sempre foi, em primeiro lugar, uma disciplina espiritual cujo foco é a iluminação (moka), i.e. a liberdade interior, a percepção desanuviada da Verdade.

Como observamos hoje no Ocidente, a prática do Yoga na forma incisiva da execução dos āsanas tem cultivado a fortificação do complexo ego-personalidade. Uma deturpação moderna do Yoga que eu denomino Yoga Postural ou Ego Yoga.[2]

Algumas tradições espirituais como o Śaivismo da Caxemira, considerado a culminação do pensamento filosófico-religioso indiano e a forma mais sutil e refinada de Yoga, descreve o ego como a contração do Ser (ātma-sakoca). O Ser, de modo estranho, contrai a Si mesmo, criando o senso artificial de existência individualizada, em oposição a outras existências individualizadas, i.e. egos autônomos. O complexo ego-personalidade é ele mesmo uma constrição (sakoca) que tende a delimitar e confinar a verdadeira natureza de cada um de nós. Ele é o principal responsável e culpado por nossa experiência universal de sofrimento humano, seja uma sensação inferior de inadequação, falta, fragmentação, não-realização, inquietação, infelicidade, angústia, desconforto e dor. Mas quando, por meio da prática espiritual intensa, nos tornamos capazes de afrouxar nossa própria constrição egóica, adentramos a um estado de expansão (vikāa) onde experimentamos nossa verdadeira natureza, livre, infinita e ilimitada.

Mas do ponto de vista tradicional do Yoga conforme estabelecido por Patañjali, o ego não é considerado a causa raiz do sofrimento humano. Aqui, é a ignorância espiritual a fonte de todo o mal. Ela precede a formação do ego, pois todos nós nascemos na ignorância de nossa verdadeira natureza como Espírito. Isso nos leva a desenvolver um senso cada vez mais forte de limitação que se expressa como eu e meu. Portanto, do ponto de vista tradicional do Yoga, este é um processo de alienação de nossa verdadeira natureza, de nossa identidade infinita e ilimitada. Patañjali, em seu Yogasūtra (II: 3ss), fala sobre essa alienação do eu quando ensina as cinco causas de aflição (kleśā) humana: ignorância espiritual ou falta de sabedoria (avidyā), egoidade (asmitā), desejo, apego (rāga), aversão, desgosto (dvea) e apego à vida, instinto de sobrevivência, medo da morte (abhiniveśa).

Este princípio de egoidade (asmitā) corresponde no khya e no Śaivismo da Caxemira aquilo que conhecemos como ahamkāra, i.e. o princípio de individuação que capacita a todos nós nos percebermos como individualidade independentes. Este princípio de egoidade surge a partir da sementeira da ignorância espiritual e, por sua vez, dá origem ao tipo de reatividade que caracteriza a vida comum: o apego que experimentamos como aquilo que é agradável e a aversão que sentimos como aquilo que é desagradável. Nós nos sentimos alguém, ou seja, um indivíduo corporificado com uma mente e personalidade específica. Assim, passamos a nos comportar de acordo com essa suposição, afirmando constantemente nossa separação de todos os outros seres individualizados. Quando o senso do ego se torna bem estabelecido, procuramos protegê-lo e perpetuá-lo de maneira indefinida, o que é, de fato, é o instinto de sobrevivência.

O Yoga é uma tradição espiritual dirigida a mais elevada realização do Ser. Não se trata meramente da realização de nossas ambições corpóreas, mas a realização do Ser que é a nossa verdadeira natureza, além do corpo e da mente. Esse objetivo espiritual extraordinário vai além de nossos interesses e aspirações habituais, pessoais, intelectuais e religiosos. Essa realização espiritual é a meta definitiva de toda vida encarnada, é a liberação da alma de seu cativeiro karmico, a liberdade sobre as condições do tempo e espaço, a limitação, morte e sofrimento. Em outras palavras, o Yoga é a realização do Absoluto tanto como a unidade com nossa própria consciência mais profunda quanto à própria essência de tudo o que é ou tudo que poderia existir.

Portanto, a verdadeira prática do Yoga não é um passatempo, uma atividade secundária ou um sistema de exercícios. Para que o Yoga se realize na vida de cada um, todas as atividades diárias devem tornar-se parte de um ritual, uma oferenda e meditação a Īśvara, o Absoluto. Devemos consagrar todos os aspectos de nosso ser à fonte infinita de luz que ilumina nosso caminho.

Quando praticamos o Yoga desta maneira, passamos dos aspectos transitórios e finitos de nosso complexo corpo-mente à realidade eterna e infinita da Consciência não condicionada. Entretanto, para que essa prática seja efetivada e ocorra uma mudança radical em nossa psique, precisamos pôr de lado nossos processos comuns de pensamento e nosso ego em favor de uma Consciência que não esteja circunscrita pelo cérebro ou pela mente.

A prática do Yoga, em todo seu escopo, torna sativico[3] cada um de seus adeptos. A prática de āsanas serve para ajudar a reduzir o caudal de raja, a principal qualidade (gua) que causa o turbilhão mental, é por isso que, do ponto de vista tradicional do Yoga, a prática incisiva de execução dos āsanas é contra-produtiva para se alcançar estados profundos de interiorização. Sem a execução apropriada do āsana para assentar o prāa, o prāāyāma torna-se irregular; sem a execução apropriada do āsana para assentar os sentidos, pratyahāra torna-se impossível; sem a execução apropriada do āsana para assentar a mente, a concentração e a meditação (dhāraā e dhyāna) não serão conquistadas. Portanto, para todos os que estão verdadeiramente comprometidos com os estágios mais profundos do Yoga, a prática correta de āsana não pode ser negligenciada. A execução dos āsanas iniciam uma limpeza sistemática no organismo do praticante, preparando-o para as práticas yogīs mais avançadas.

Portanto, é urgente que compreendamos o āsana como parte de uma ciência sagrada que compreende todos os aspectos da Consciência. Além de serem a base preparatória para estágios avançados de prāāyāma e meditação, os āsanas refletem não somente um profundo conhecimento do corpo físico, mas também o prāa, a mente e o espírito, do qual o corpo é apenas uma imagem ou manifestação externa.

Yoga, no verdadeiro sentido de meditação profunda, usualmente ocorre quando o corpo está repousando em uma postura sentada. Quando a meditação profunda ocorre, o āsana se esvai. Em outras palavras, a percepção do corpo e a identificação com suas sensações param de se manifestar completamente. É digno de nota que, muitos dos grandes yogīs conhecidos por nós, não eram exímios praticantes de āsana. Posso citar, por exemplo, Swami Vivekananda, que trouxe o Yoga para o Ocidente no fim do Séc. XIX, não fazia nenhum tipo de āsana, exceto algumas posturas meditativas.[4] Da mesma maneira, observamos proficientes asanistas que estão longe das práticas meditativas mais profundas do Yoga. Outros adeptos contemporâneos importantes aprenderam seus āsanas e tiveram suas experiências internas com eles através da ascensão de seu próprio prāa, não de uma prática física. Este é o verdadeiro segredo por detrás da prática de āsana: o prāa.

O haha-yoga é o método ou a prática yogī que mais se vale das posturas para execução de seu sādhana. Contudo, é válido relembrar que o prāa, no haha-yoga, é muito mais importante que a prática de āsana. Em outras palavras, o professor original das posturas do Yoga é o prāa, não a instrução humana. Portanto, o verdadeiro professor de Yoga está preocupado em despertar o prāa no interior do aluno, não ensiná-lo em como colocar o corpo em diferentes posições. O professor de Yoga realmente conectado com a tradição se preocupa em ensinar o aluno a dirigir o poder do prāa de maneira que sua prática de āsana se transforme em um processo interior. Quando o prāa conduz o āsana, seu poder terapêutico se torna muito maior. Quando o prāa é o foco da prática de āsana e os movimentos (āsanas) são conduzidas pelo fluxo do alento (prāa) como as pérolas são colocadas em um cordão, então você estará praticando o Yoga delineado por Patañjali em seu Yogasūtra.


Notas:

[1] Quando utilizo os termos prática espiritual ou disciplina espiritual, o leitor deveria entendê-los como expressões curtas que denominam um sistema de treinamento físico e mental desenvolvido para facilitar e cultivar a claridade de percepção e consciência de nossa verdadeira Identidade Interior. De acordo com a filosofia do Yoga, não pode haver, em um sentido estrito, algo como a pratica espiritual. O espírito, i.e. a essência ou o Ser (purua, ātman) não precisa de prática, pois ele é eternamente puro e perfeito. É a mente e o corpo que requerem treinamento e purificação para que este Ser (ou espírito) possa ser realizado.

[2] Eu me inclino a colocar nessa denominação sistemas modernos de Yoga Postural como Iyengar, Aṣṭāga, Power, Vinyasa Flow etc.

[3] Um neologismo baseado no termo sânscrito sattva que significa condição de ser ou esseidade, e designa o princípio psicocósmico da lucidez ou transparência. Sattva é um substantivo formado do particípio Sat (ou sant), que deriva de as-, o verbo ser (compare com as palavras em português presente, ausentesant – e também essência, essencial – as-); Sat significa ser, como deve ser, bom, bem ou perfeito. Portanto, sattva é o estado ideal de ser, bondade, perfeição, pureza cristalina, brilho imaculado e completa quietude. A qualidade de sattva predomina nos deuses e seres celestiais, nas pessoas altruístas, e nos homens dedicados a busca puramente espiritual. Este é o guna que facilita a iluminação, por isso, o primeiro objetivo ensinado no Yogasūtra de Patañjali é aumentar o caudal de sattva, a fim de purgar gradualmente a natureza humana dos princípios rajas e tamas.

[3] Mas Swami Vivekananda também foi um grande crítico do haha-yoga. Foi ele quem introduziu no Ocidente, pela primeira vez, o conceito separado de tradições de Yoga (rāja, jñāna, bhakti-yoga etc.). A idéia original partiu de seu guru, Swami Ramakṛṣṇa, mas quem colocou no papel foi ele. Isso foi uma forma mais fácil de popularizar o Yoga no Ocidente.

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