quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Swami Shankardevananda Saraswati
KUṆḌALINĪ-TERAPIA é a técnica de cura para o futuro que
resultará na mudança de consciência que no presente assola o mundo. É o
culminar de todos os métodos de cura, do Yoga
à alopatia. A palavra kuṇḍalinī é
derivada de duas raízes: kuṇḍa que
significa lugar profundo e kuṇḍali que significa enrolada. Kuṇḍalinī é a energia em espiral, que reside na base da coluna
vertebral e nas profundezas de nossa consciência. Portanto, kuṇḍalinī-terapia ajuda a eliminar doença através da utilização desta
energia.
Para alcançar saúde total, podemos tocar nesta energia
através de āsanas, pāṇāyāmas, mudrās e bandhas que
estimulam certas glândulas endócrinas. Estas, por sua vez, liberam a energia
dos cakras e reequilibram o sistema
nervoso, afetando todos os órgãos do corpo. Quando estimulamos o mūlādhāra-cakra, a energia sobe pela
medula espinhal e entra no complexo cérebro-mente. Mas este não é o despertar
da kuṇḍalinī, é apenas uma gota da
seiva da vida que doa energia ao corpo, removendo e prevenindo a doença. Ao
mesmo tempo o corpo está se preparando para receber o enorme influxo de energia
que irá subir pela coluna quando a kuṇḍalinī
despertar.
Kuṇḍalinī-terapia é uma forma de lidar com a vida,
ao invés de evitá-la. Ela lhe dará a força necessária para enfrentar todos os
problemas com serenidade. Mesmo que o objetivo final de consciência
transcendental ainda esteja longe, na medida em que seguir este caminho, irá se
tornar mais saudável e mais forte. A vida tomará um novo significado e você
terá mais energia a cada novo dia.
A
relação entre as glândulas endócrinas e os cakras
As glândulas endócrinas fabricam certos compostos
químicos chamados de hormônios que regulam todas as funções do corpo. O corpo e
a personalidade são dependentes do bom funcionamento das glândulas endócrinas
para a manutenção da boa saúde. Por exemplo, uma secreção excedente de tiroxina
nos faz irritados, tensos, muito emocionados e anciosos. Pensamentos se
intensificam e nosso metabolismo se acelera. Esta é a imagem oposta de uma
baixa taxa de secreção. Para alcançar uma saúde perfeita, cada glândula deve
trabalhar de forma eficiente e em harmonia com as outras glândulas. Juntas, elas
formam um eixo controlado pela glândula mestre no cérebro, a pituitária.
As principais glândulas endócrinas formam a base da kuṇḍalinī-terapia. Elas estão intimamente ligadas com os cakras: gônadas (swādhisṭhāna),
supra-renais (maṇipūra), timo (anāhata), tireóide (viśuddhi), pineal (ājñā) e hipófise (sahasrāra). O mūlādhāra-cakra não tem uma
glândula endócrina equivalente. No entanto, ele é associado ao corpo perineal,
uma glândula vestigial que perdeu a sua função no homem e deve ser reativada
para que ele possa despertar a kuṇḍalinī
adormecida. Isto se consegue através das práticas do Yoga.
Em um nível mais sutil, as glândulas são canais que
permitem que a energia prânica entre no corpo através dos cakras. De acordo com William A. Tiller, Ph.D. e Professor de
Ciências de Materiais da Universidade de Stanford, os pares sistema endócrino e
cakras são transdutores que permitem
que a energia entre no corpo. Quando há equilíbrio entre os dois sistemas, a
energia aproveitada é coerente e sincronizada. No entanto, se os cakras ou as glândulas estão ainda um
pouco fora de equilíbrio, essa energia é dissipada ao invés de utilizada
totalmente, causando uma desfunção dos órgãos do corpo, o que altera o sistema
como um todo.
Os cakras podem
ser visualizados como vibrantes vórtices giratórios de energia, mas na maioria
das pessoas, eles não estão girando e nem estão alinhados. O objetivo da kuṇḍalinī-terapia é, portanto, operar em dois níveis. No nível psíquico ela
abre os cakras para que mais energia
possa ser transmitida através deles. No nível físico ela reequilibra as
glândulas endócrinas para que esta energia possa ser recebida e devidamente direcionada
para a promoção da saúde e vitalidade de todo o complexo corpo-mente.
Com o despertar da kuṇḍalinī,
novos hormônios são liberados pela hipófise e o equilíbrio dos cakras e glândulas endócrinas se
aproxima da perfeição. Assim, todas as funções do corpo são ordenadas e
resultados é a saúde integral.
O sistema nervoso
central
O cérebro, que controla todo o sistema nervoso, é o
correlato físico do sahasrāra, o cakra mais elevado. Ele é o controlador de
todos os outros centros do complexo corpo-mente. Para alcançar a saúde integral
é importante que todos os circuitos do cérebro sejam integrados, ordenados e harmonizados.
Dentro do cérebro estão todas as potências e faculdades da consciência mais
elevada esperando para serem ligadas no momento certo.
O cérebro é como uma flor e a medula espinhal seu talo.
Quando a energia ascende por dentro da medula espinhal desde o mūlādhāra, levanta-se como
uma faísca, atravessando os vários cakras.
Eventualmente, ela chega ao cérebro e lá abre muitos centros adormecidos,
ampliando a nossa consciência. A finalidade da kuṇḍalinī-terapia é
trazer as faculdades inconscientes do cérebro inferior para consciência, assim
como o lótus desdobra suas pétalas. Isto irá aumentar o seu potencial para a
vida e lhe dará controle sobre as funções corporais e as circunstâncias do dia-a-dia.
O sistema nervoso central é o controlador mestre do
corpo, em uma fração de segundos ele responde as reações e necessidades
internas e externas do organismo. O sistema endócrino é muito mais lento, sendo
destinado a regular o metabolismo do corpo e outras funções durante um período
de minutos e dias. Os sistemas endócrino e nervoso estão ligados e ambos se
conectam aos cakras para um controle
mais completo de todo o sistema. Um aumento de prāṇa no corpo ajuda a reequilibrar a interação neuro-endócrina que,
por sua vez, estimula os órgãos do corpo a funcionar mais eficientemente. Este
é um processo delicado e exige o toque do
mestre.
Tenha em mente que a kuṇḍalinī
não é apenas energia no sistema nervoso; ela é a soma total da energia cósmica.
Esta energia é transmitida através do sistema nervoso. Assim você pode imaginar
o quão forte precisa estar para lidar com essa força. O despertar da kuṇḍalinī é como estar sentado em cima da
explosão de uma bomba atômica.
O
terceiro olho
O ājñā-cakra está
situado no centro da sobrancelha. Seu correlato físico é a glândula pineal.
Quando este cakra começa a funcionar,
através de práticas como mūla-bandha, śāmbhavī-mudrā, meditação e assim por diante, visões internas
acontecem. Esta é a abertura do terceiro olho, o olho da intuição.
Eventualmente, quando o ājñā é aberto
completamente, você recebe visões do cakra
em si mesmo como um círculo com o símbolo auṃ
no centro e duas pétalas de cor fumaça-acinzentada de cada lado. Para que as
duas pétalas apareçam, os dois lados do cérebro devem estar funcionando e
cooperando um com o outro em um relacionamento ideal. O símbolo aparece quando
o cérebro e a mente estão integrados, bem como o sistema nervoso e as funções
corporais estão equilibrados.
Dentro de cada lado do cérebro existe uma cavidade
preenchida por um líquido. Essa cavidade é chamada de ventrículo. Quando o
cérebro é visto de frente, esses ventrículos se parecem com as duas pétalas do ājñā-cakra. Seu fluido é de uma
cor esfumaçada. A glândula pineal está no centro da cabeça e é representada
pelo círculo central do cakra.
É assim que o ājñā-cakra, o
receptor da intuição e as instruções da mais elevada consciência, se manifesta
no nível físico. As duas pétalas são os ventrículos contendo o líquido cefalorraquidiano
e o auṃ no centro é a glândula
pineal. Quando abrimos o nosso terceiro olho através do kuṇḍalinī-yoga, começamos
a perceber as coisas em um nível psíquico. Por conta dos planos psíquico e
físico estarem intimamente relacionados, a forma mental é um reflexo da matéria
física.
Através das práticas do Yoga você pode despertar o terceiro olho, afetando assim o correcto
funcionamento e integração do complexo hipófise-pineal no cérebro. Quando isso ocorre,
todo o complexo mente-corpo se torna mais saudável, pois você passa a controlar
conscientemente o sistema nervoso e secreções hormonais.
Viajando
através do décimo portal
Durante a última fase do despertar da kuṇḍalinī, o aspirante vai do ājñā ao sahasrāra, logo
acima da cabeça. Esta é a fase mais difícil do Yoga e exige a orientação de um guru para que a jornada ocorra com
sucesso através do labirinto. O aspirante deve viajar a partir da glândula
pineal através do labirinto de quinze bilhões de neurônios para ter acesso ao
sulco central, o espaço entre os dois lados do cérebro. Em seguida, ele viaja
através do fluido no sulco e perfura o topo do crânio para atingir o sahasrāra. Algumas escolas
de Yoga afirmam que o crânio, na
verdade, se abre e quando isso ocorre, o yogī
pode deixar seu corpo a qualquer momento que desejar. Ele não é mais dependente
do corpo físico e órgãos dos sentidos para manter a consciência.
Técnicas
Todas as técnicas do Yoga
fazem parte da kuṇḍalinī-terapia, o caminho para uma saúde
perfeita, desde o mais simples āsana.
Algumas técnicas, no entanto, são mais diretas do que outras.
Āsanas como padmāsana e siddhāsana criam circuitos magnéticos que se concentram mais
especificamente na coluna vertebral. Āsanas
e prāṇāyāmas removem obstruções ao
fluxo da consciência através das nāḍīs.
Bandhas como jālaṃdhara-bandha (trava da
garganta), uḍḍīyāna-bandha (trava do umbigo) e mūla-bandha (trava do
períneo) são métodos poderosos para estimular as glândulas endócrinas e os cakras. Eles liberam grandes quantidades
de energia.
Mudrās, gestos ou
símbolos arquetípicos com significados profundos, são métodos para controlar o
fluxo de energia. Através das mudrās podemos
controlar a quantidade de energia que entra no corpo e nos tornar mais conscientes
das energias internas como prāṇas e vāyus.
Āsanas, prāṇāyāmas, mudrās e bandhas foram
integrados em um sistema chamado kriyā-yoga. Este poderoso método aumenta e direciona
o fluxo prânico da consciência para os centros psíquicos do corpo e desperta-os
de seu estado dormente.
As técnicas acima só devem ser praticadas sob a
orientação de um mestre ou professor qualificado que está ciente dos perigos
que esperam muitos incautos, na grande maioria das vezes impacientes ou não
qualificados. O mestre sabe que órgãos devem receber mais influxo de prāṇa a fim de equilibrar a
personalidade como um todo. Em seguida, as faculdades psíquicas, espirituais e
ocultas começam a se manifestar espontaneamente e melhorar nossas vidas.
Swami Shankardevananda
Saraswati é natural da Austrália. Médico, foi discípulo de Swami Satyananda Saraswati.
De 1990 a 2001 ele coordenou psquisas em Yoga Terapia aliando a
medicina moderna as técnicas do Yoga. Atualmente viaja pelo mundo como
embaixador da Bihar School of Yoga. É autor de livros consagrados como The Effects of Yoga
on Hypertension, Yoga for Digestive System e Yogic Management of Asthma and Diabets.
Tradução de Purneś
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